Nos últimos dias, assistimos à disseminação da imagem de uma publicação no Instagram, partilhada num núcleo privado e disseminada de forma ilícita. Nessa imagem, rapidamente tornada viral, uma mulher jovem e jurista de profissão elencava episódios e afirmações de teor sexual que imputava a João Cotrim de Figueiredo, que conheceu num contexto laboral. O relato, em tom de desabafo, ilustrava um padrão de assédio sexual, facilmente identificável e reconhecível para quem o tema seja familiar. Cotrim de Figueiredo reagiu, negando categoricamente o teor das afirmações e assegurando que agirá judicialmente contra a autora
Surgiram, em catadupa, reacções de indignação: o tribunal da opinião pública – tantas vezes escudado na presunção de inocência para, perversa e paradoxalmente, garantir que as mulheres mentem – foi implacável. O timing desta divulgação, diz-se, é suspeito, estratégico, é uma prova de ataque político, que visaria derrubar Cotrim na última semana de campanha das presidenciais.
Nada disto é novo: recuemos a 1991. Anita Hill, advogada e professora universitária (que num primeiro momento se recusara a falar), prestou declarações no Senado dos Estados Unidos, testemunhando ter sido vítima de assédio sexual pelo jurista Clarence Thomas, seu antigo supervisor. Descreveu detalhadamente os avanços e sugestões sexistas e sexualizadas, persistentes e desumanizantes, de que tinha sido alvo. Foi acusada de móbil político, de campanha suja, de vontade de destruição da carreira do assediador. Muitos disseram que o timing era “suspeito” e revelador das intenções.
O processo, repetido num quase decalque histórico, aconteceu em 2018, quando Christine Blasey Ford testemunhou a tentativa de violação por Brett Kavanaugh, ocorrida muitos anos antes. Christine Blasey Ford contou a sua história, quando Kavanaugh foi nomeado para juiz do Supremo Tribunal. “Porque não falou antes?”, perguntaram muitos. A suspeita generalizada que temos perante as vítimas e os seus relatos é agudizada quando falam num momento politicamente relevante.
“Porquê agora?”, repete-se. E é fácil responder: a exposição repetida ad nauseam de um abusador, em prime time, por semanas consecutivas, e a glorificação da sua persona pública, são, potencialmente, desencadeadores de ansiedade e subsequente resposta catártica.
Sobre o alegado trunfo político: o que ganham estas mulheres? O que ganhariam Anita, Christine ou esta jovem jurista portuguesa, antecipando o escrutínio, a descredibilização, as ameaças, a ostracização, a ridicularização, as calúnias, o impacto profissional?
E o que perdem, afinal, estes homens? Nos casos acima mencionados, ambos os homens foram confirmados como juízes do Supremo Tribunal dos EUA. Por cá, somam-se os comentários que afirmam a certeza de votar em Cotrim de Figueiredo – não apesar do teor das mensagens, mas por causa delas.
“Porque não falou antes?” é uma pergunta clássica (não sendo, em bom rigor, uma pergunta, mas uma falsa interrogação, acusatória e invalidante). O tempo da denúncia das vítimas falha sempre: se ocorre no imediato e as vítimas manifestam desorganização emocional, a acusação é vista como impulso, e a resposta emocional das vítimas é lida como prova da sua instabilidade. Se, como é mais comum, ocorre anos depois, motivada por um gatilho ou fruto de um processo de reconstrução, é invalidada como tardia e calculista. Se as denúncias de violência sexual causam, potencialmente, prejuízo ao assediador, decreta-se que foram calculadas e motivadas por vingança ou ataque pessoal. Se o relato ocorre depois da morte dos abusadores, diz-se que se viola o bom nome de quem já não tem direito a resposta. O escrutínio insuportável do timing é uma prescrição de silêncio.
Uma última nota, sobre a carta das trinta mulheres que vieram em defesa de Cotrim: o seu testemunho é legítimo (ainda que denote uma tremenda falta de sororidade). Parte, contudo, de um raciocínio falacioso que importa desmontar: que assediadores assediam indiscriminadamente, sem freio nem critério, e que a experiência de uma anula ou invalida a experiência de outras. O imaginário do perpetrador como besta incontrolável está longe da realidade: assediadores escolhem vítimas, normalmente com menos poder, muitas vezes mulheres mais jovens, sobre quem têm ascendente (profissional, simbólico e/ou financeiro). Invalidar a experiência de outra mulher porque não é coincidente com a minha não prova nada – a não ser a minha incapacidade de ouvir a história de outra.
Diz-se que temos um país profundamente polarizado. Nada temam: basta um relato de violência sexual para mostrar como há chão comum entre nós, transversal a todo o espectro político. Em Portugal, odiamos mulheres de forma muito democrática.