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29-09-2025        Público

Isaac Nader conquistou o título de campeão do mundo dos 1500 metros. Pedro Pablo Pichardo voltou a ser campeão do mundo do tripo salto. Ambos são portugueses, ambos têm histórias e percursos migratórios nas suas vidas. É irónico que num momento em que estes atletas valorizam Portugal pelas medalhas conquistadas, grassa no país uma retórica populista de exclusão e ostracização do “outro”.

O paradoxo é evidente: aplaudem-se os feitos dos nossos atletas imigrantes, mas tolera-se a normalização de discursos de ódio contra todos os outros que partilham o mesmo percurso de uma vida construída longe da terra natal, num país que, em teoria, os acolhe e que recorrentemente os manda para a sua terra. Este duplo padrão não pode ser escamoteado. Se Pichardo e Nader são heróis nacionais, por que razão não são respeitados, dignificados e valorizados os imigrantes que quotidianamente constroem casas, cuidam de idosos, conduzem táxis, apanham fruta ou entregam comida?

Ainda há pouco tempo, em pleno Parlamento, durante o debate às alterações da lei da nacionalidade, foi lida uma lista de nomes estrangeiros de crianças que alegadamente frequentariam uma escola de Lisboa, com o argumento de que estariam a ocupar o lugar de alunos portugueses, sendo essas crianças classificadas como “zero portuguesas”. Nader e Pichardo são também nomes estrangeiros, aos quais se podem juntar Obikwelu, Zicky Té, Dongmo, Holub, Pepe, Quintana, Travante, Fu Yu, Yokochi, Deco, Voytsov. São todos nomes estrangeiros de cidadãos portugueses, uns nascidos e criados em Portugal, outros aqui chegados por via da mobilidade migratória, todos assumindo o país.

É fácil, do púlpito populista, lançar slogans inflamados contra imigrantes e estrangeiros, espalhar mentiras sobre insegurança e corrupção cultural. Difícil é encarar a realidade: sem os imigrantes, o país colapsaria. Faltariam braços nos hospitais, nos campos, nas obras, nos restaurantes. Faltariam também pernas e coração para ganhar medalhas. Os populistas, na sua covarde mediocridade tacanha, não dizem isso porque vivem da exploração do medo. O seu projeto não é defender o país. É dividi-lo!

A ironia é dolorosa: os mesmos que vibram com os saltos de Pichardo e as corridas de Nader são, muitas vezes, os que toleram discursos que desumanizam aqueles que partilham a mesma condição , a de ter vindo de fora para fazer de Portugal a sua casa. Aplaudir o atleta e desprezar o trabalhador imigrante é o retrato da hipocrisia.

Mas não há narrativa racista que apague a realidade. Portugal sempre foi terra de partida e de chegada. Durante séculos, ainda há poucas décadas, fomos emigrantes em massa, tratados muitas vezes com desprezo noutros países. Agora, alguns querem repetir aqui as mesmas humilhações que os nossos sofreram lá fora. A memória curta e a manipulação impune transformam Portugal num país pequeno, mesquinho e fechado.

Durante séculos, ainda há poucas décadas, fomos emigrantes em massa, tratados muitas vezes com desprezo noutros países. Agora, alguns querem repetir aqui as mesmas humilhações que os nossos sofreram lá fora

Mas o desporto não perdoa! Ainda que as bancadas dos estádios por vezes sejam cruéis espaços de manifestações racistas, a verdade é que no estádio valem os metros percorridos, os segundos cronometrados, os centímetros conquistados. Ali em Tóquio, no coração do mundo desportivo, em pleno Campeonato do Mundo de Atletismo, foram os filhos das diásporas migratórias que mostraram ser os melhores. Não há narrativa racista que apague isso.

Mais do que medalhas, estes atletas mostram que a identidade portuguesa não é estática nem pura, mas dinâmica, mestiça e em permanente reinvenção. O orgulho que sentimos nos pódios deve ser equivalente à dignidade que sentimos nas ruas, nas escolas e nos locais de trabalho, quando convivemos com quem escolheu Portugal para viver. A imigração e os imigrantes são importantes, não apenas por razões demográficas ou laborais, mas essencialmente porque só uma sociedade plural é capaz de resistir ao encerramento de fronteiras, à intolerância e à mediocridade.

Não se conhece o comprometimento cívico de Nader e Pichardo, nem a sua orientação política, mas as suas vitórias desportivas são uma enorme lição política. São uma bofetada no rosto do racismo travestido de patriotismo. São os símbolos de um país plural e diverso, que tem na imigração não uma ameaça, mas uma fonte de força, de renovação e de orgulho coletivo.

Logo após o enorme salto de campeão, Pichardo em frente às câmaras de TV, em tom provocatório questionava: “Who is the best, baby?” Não conhecendo o contexto da frase, especulando que tenha um sentido de rivalidade desportiva, parece que a mesma serve perfeitamente como questionamento daqueles que identificam “portugueses de primeira” e apontam os que são “zero portugueses”. Ainda que não de forma intencional, Pichardo reconfigura o campo simbólico do desporto em espaço de afirmação identitária, onde a vitória deixa de ser apenas resultado competitivo e se transforma em reivindicação de dignidade, reconhecimento e pertença.


 
 
pessoas
Carlos Nolasco



 
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