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22-05-2024        Público

Nas últimas semanas o Brasil ganhou grande destaque nos media internacionais por causa das enchentes que abateram a região do Rio Grande do Sul. As chuvas que chegaram aos 700 milímetros destruíram cidades inteiras, causaram centenas de mortes e de pessoas desaparecidas e reacenderam o debate sobre o impacto das alterações climáticas e a atuação dos governantes nas políticas de prevenção. Em Portugal, enquanto líder da extrema-direita, André Ventura não perdeu tempo; as suas redes sociais foram uma das principais fontes de fake news a querer explorar a miséria humana por razões de propaganda ideológica. Ventura acusou o governo progressista brasileiro de tentar esconder o desastre natural e de não querer receber doações ou ajuda de Portugal.

A solidariedade de Ventura se explica com o falhanço política da extrema-direita no Brasil perante este desastre. Os aliados de Ventura governam o estado do Rio Grande do Sul e – sob pressão da expansão imobiliária – têm pressionado para a flexibilização das normas ambientais e o desmantelamento de diques nos últimos tempos. Também são aliados de Bolsonaro que governam o estado do Rio de Janeiro onde contrataram a festa gigante da Madonna que ocorreu em Copacabana simultaneamente ao desastre. Esta festa já tinha sido o centro das atenções das fake news no Brasil nos primeiros dias depois do desastre: corria a história falsa que o presidente Lula da Silva desperdiçou dezenas de milhões de reais em um concerto da Madonna que poderiam ter sido usadas para as vítimas.

Diversas outras notícias falsas têm dificultado os trabalhos do governo perante a situação de emergência, e nesse contexto o Ministério Público brasileiro decidiu abrir inquéritos a todas as publicações falsas relativamente ao desastre. Perante a possível condenação judicial da propaganda falsa de extrema direita, nada melhor que confiar no amigo fora do país… É assim que temos de interpretar – e não ignorar – a talvez surpreendente atenção rápida e virulenta do líder do Chega perante o desastre do Rio Grande do Sul.

A suposta indignação de Ventura, no entanto, não é só hipócrita pela prática política dos seus aliados bolsonaristas no Brasil, mas também perante a própria inconsistência ideológica e histórica: primeiro porque Ventura sempre quererá esconder o óbvio – que a culpa por este tipo de desastres não se encontra à esquerda. É necessário compreender que desastres “naturais” nunca só são naturais, mas também sociais e políticos, não só nas consequências, mas também nas suas origens. Este tipo de desastres, desde enchentes, fogos florestais ou até epidemias, tendem sempre a afetar desproporcionalmente as populações mais pobres e oprimidas, seja porque estas se encontram nas regiões mais periféricas, com menos infraestrutura e serviços públicos, seja porque têm menos poder de compra e outros meios para escapar ou sobreviver o desastre. Mas também as causas são longe de ser naturais: desde a influência das alterações climáticas provocadas pela industrialização, ao processo de urbanização, desflorestação das encostas… em todo o lado se vê a “mão invisível”, pouco natural, do capitalismo.

Segundo, porque o cripto-herdeiro do salazarismo provavelmente não quer ser lembrado do similar desastre na zona da Grande Lisboa que significou o início do fim do Estado Novo: Em novembro de 1967, 115 milímetros de chuva em poucas horas – lembrem que no Rio Grande do Sul caíram 500-700mm – significaram a morte de mais de 700 pessoas na região. A tentativa do regime – esta sim verdadeira – de “esconder” e censurar o desastre, foi um importante momento de politização dos milhares de estudantes que se tinham mobilizado para socorrer as vítimas enquanto o Estado fascista se restringia à repressão.

Esperemos que também neste caso o desastre natural sirva para uma conscientização política alternativa ao capitalismo, que desmascare a propaganda falsa do populismo de extrema-direita. Esperemos que 50 anos depois de Abril, 1967 também inspire o Brasil.

 


 
 
pessoas
Jonas Van Vossole



 
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