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14-11-2023        Público

O patriarcado tem estado frequentemente no centro das estruturas de poder que alimentam as guerras. Neste sentido, é ele próprio um sistema de guerra, como nos mostrou Betty Reardon, destacando a forma como ele perpetua a violência e a opressão numa escala global.

As guerras atuais, como todas as guerras da História, exprimem e promovem masculinidades militarizadas. Estas hipermasculinidades são construções idealizadas e invariavelmente violentas de masculinidade que têm um lugar hegemónico sobretudo – mas não só – em tempos de conflito armado. Falamos de masculinidades que conferem prioridade a traços como a força e a normalização da agressividade, entre outros. São perpetuadas através de vários meios, incluindo a propaganda estatal, os meios de comunicação e as normas sociais.

O impacto das masculinidades militarizadas nos conflitos mais recentes tem sido devastador. A perpetuação destes estereótipos intensifica a agressão e impede soluções não-violentas. A desumanização do outro, muitas vezes enraizada em narrativas hipermasculinas, perpetua a violência e dificulta a empatia.

A glorificação do guerreiro e a desvalorização das qualidades não-violentas e de cuidado, tidas como femininas, aumentam de forma exponencial o militarismo nas sociedades. Mas a guerra não é apenas um acontecimento que tem lugar em campos de batalha distantes ou nos corredores do poder; é uma presença sistémica que permeia a nossa vida quotidiana de formas subtis. Da linguagem militarista às dinâmicas desiguais de poder, a normalização do sistema de guerra está profundamente enraizada na nossa sociedade.

Uma das formas mais insidiosas de normalização do sistema de guerra é através da linguagem que utilizamos. Analisemos a linguagem da guerra: termos como "campo de batalha", "linhas da frente" e "salas de guerra" são normalmente usados em contextos não relacionados com a guerra letal. Desde comentários desportivos, pandemias ou discussões de negócios, a linguagem da guerra é utilizada para transmitir competitividade e conflito. Esta linguagem reforça a ideia de que a vida é uma luta contínua e perpetua a noção de que os conflitos violentos e a agressão são aspetos inerentes e até celebrados da nossa existência quotidiana.

A indústria do entretenimento desempenha um papel importante na normalização do sistema de guerra. Os filmes, os programas de televisão e os jogos de vídeo glorificam frequentemente os conflitos militares e a violência. Estas representações mediáticas não só nos dessensibilizam em relação à violência da guerra, como também reforçam masculinidades violentas, retratando a agressão e a violência como estratégias legítimas de resolução de problemas para homens.

O complexo militar-industrial é outro fator na normalização de um sistema de guerra. A indústria da defesa exerce uma influência considerável, moldando as políticas governamentais e sustentando as economias. A perpetuação de conflitos militares, seja através de intervenção direta ou da venda de armas a partes em conflito, torna-se uma enorme fonte de lucro. Este interesse financeiro na guerra mina os esforços de paz e amplifica a normalização do militarismo.

A normalização de um sistema de guerra na vida quotidiana exige um esforço concertado para a desafiar e mudar. O feminismo oferece uma alternativa para quebrar a hegemonia das masculinidades militarizadas e trabalhar para um mundo mais pacífico, desvelando outras vias para resolução de conflitos e oferecendo alternativas à socialização com base na empatia e no cuidado. Reavaliando os nossos valores, rejeitando as dinâmicas de poder desiguais e desafiando a linguagem que utilizamos, podemos criar uma sociedade que promova a cooperação, a empatia e a paz em vez do militarismo e do conflito armado. Negligenciar esta dimensão das coisas perpetua um ciclo de violência e desigualdade que nos impede, cada vez mais, de alcançar um mundo em paz.


 
 
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Tatiana Moura



 
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