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27-05-2023        Jornal de Notícias

António Costa tem razão quando afirma, como fez na passada quarta-feira, no debate parlamentar, que "cada dia que a vida dos portugueses melhorar é um dia em que a Direita terá mais dificuldade em derrubar este Governo". Disse-o, como resposta ao frenesim que move o PSD e seus putativos aliados. Contudo, interroguemo-nos sobre o pressuposto inicial da afirmação do primeiro-ministro.

É uma evidência que o PSD não tem programa político para responder aos desafios com que se deparam os portugueses e o país, tem apenas as narinas ultrassensíveis ao cheiro do poder e, no imediato, ao odor irresistível que os cifrões do PRR emanam. E será provável que, se a chafurdice política diminuir, o PSD tenda a atropelar-se. Todavia, o governo do PS é muito responsável pelos "casos e casinhos" que alimentam o atual e perigoso ambiente político e a vida da esmagadora maioria dos portugueses não está a melhorar no imediato, nem estão em curso alterações estratégicas que assegurem melhorias no futuro.

Recentemente, o Eurostat informou que Portugal é, desde 2005, o país da União Europeia que mais se desindustrializou. Ora, a indústria tem sido, historicamente, o setor que mais cria emprego qualificado e oferece melhores salários. Novas atividades e novos serviços ligados à indústria tendem a manter e a reforçar esse papel, bem como o da melhoria da produtividade. Entretanto, dados disponibilizados esta semana pelo INE mostram-nos que o setor privado tem uma taxa de trabalhadores com licenciatura ou mais pouco acima dos 20%. Isto é preocupante e reflete o facto da nossa economia assentar no turismo e serviços a ele ligados - de baixo perfil e fraco valor acrescentado. Essa predominância não permitirá, nomeadamente, estancar a emigração das novas gerações qualificadas.

O boom do turismo (crescerá no terceiro trimestre do ano) pode provocar algum crescimento económico e aumento de emprego e, por consequência, fazer crescer a massa salarial. Mas, isso não significa aumento dos salários médios reais, nem reequilíbrio na repartição do rendimento. Há que fazer outros exercícios: comparar o salário médio real de hoje com o que tínhamos em 2019; analisar o que a inflação já comeu a todos os trabalhadores e, em particular, aos de mais baixos salários, pois o impacto da inflação sobre eles ainda é mais duro; observar pelas práticas efetivas e não por intenções discursivas, se prosseguem as políticas de baixos salários. As conclusões serão preocupantes.

Por exemplo, jornais nacionais e regionais têm noticiado que os CTT têm tido dificuldade em contratar carteiros(as) e também operadores de loja. Ainda a 23 de março o "Notícias de Coimbra" informava que esta empresa "compromete-se" a admitir, até final do ano, 100 pessoas para estas funções. Quando se lê (leiam por favor) o descritivo funcional dos carteiros, percebe-se que é um trabalho exigente, amplo, qualificado e de responsabilidade. A contrapartida é uma proposta de salário entre 765 (entrada) e 1329 (topo de carreira) euros brutos/mês e um aumento geral de 2,5% em 2023. E, para um carteiro receber o valor máximo aqui mencionado (através de bonificações) teria de desempenhar mais funções que Charles Chaplin em "Os tempos modernos".

Muito trabalho por pouco dinheiro e desorganização da vida pessoal e familiar não é melhoria da vida das pessoas. Não chega, pois, propagandear êxitos, é preciso confirmá-los. Celebrações por antecipação podem iludir, mas de seguida irritam e acabam a gerar grandes frustrações.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
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