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13-05-2023        Jornal de Notícias

Os trabalhadores e o povo português estão prisioneiros de mecanismos de exploração que agravam a pobreza, enfraquecem o país no plano demográfico e inviabilizam o desenvolvimento. A informação disponibilizada esta semana pelo Instituto Nacional de Estatística, relativa à evolução dos salários no primeiro trimestre do ano, sobre a evolução do desemprego/emprego e, também, o que veio a público sobre resultados e comportamentos da banca portuguesa, confirmam essa leitura. Estamos a ser explorados por perda do valor real dos salários, pelo agravamento das taxas de juros e baixa remuneração de depósitos e, ainda, porque os lucros obtidos com essas explorações não ficam no país.
O salário bruto total mensal médio caiu 0,6%: a inflação foi de 8% e a remuneração média por trabalhador só cresceu 7,4%. Estes resultados abrangem cerca de 4,5 milhões de trabalhadores, que estão no sistema da Segurança Social e na Caixa Geral de Aposentações. Aqueles dados indicam que a fasquia de crescimento dos salários de 5,2% em 2023, colocada no Acordo de Concertação Social num contexto inflacionário já conhecido, era escandalosamente.

Os dados divulgados fornecem-nos outras importantes pistas de análise, das quais realço duas. Primeira, aquela média nacional resulta do aumento das remunerações no setor privado em 8,3% e no público em 5,4%. Poderá dizer-se que o setor privado está a propiciar, apenas por efeitos de mercado, uma ligeira melhoria salarial em termos médios. Contudo, o setor privado continua a ter uma baixa percentagem de trabalhadores com licenciatura (ou mais), e nas empresas muito pequenas os aumentos salariais foram mais elevados que nas grandes empresas. Ou seja, o perfil da nossa economia não está a melhorar.

Segunda, no setor público, o governo ao insistir na imposição de salários baixos não atrai os trabalhadores qualificados indispensáveis para fazer funcionar, com qualidade, a prestação de cuidados de saúde, a Escola Pública, a justiça, as Forças Armadas, a Administração Pública Central e Local. Ora, quanto mais frágeis são os serviços públicos mais se recorre aos privados, agravando a exploração a que ficamos sujeitos.
O INE regista uma saída do país de 100 mil cidadãos com formação escolar superior, e apresenta uma taxa de desemprego dos jovens acima dos 20%. Estes dois dados dizem-nos que o desenvolvimento do país está tolhido e o problema demográfico se agrava. Quem centra as suas esperanças no impacto do crescimento económico que se vai registando, esquece-se de que sem melhoria na distribuição da riqueza os resultados do crescimento não chegam às pessoas.

A última crise do setor financeiro foi paga pelos portugueses com língua de palmo. Entretanto, no novo cenário, os bancos obtêm chorudos lucros à custa de taxas de juros elevadas sobre créditos à habitação e outros (valores acima do dobro dos praticados na UE), e porque continuam a remunerar os depósitos com taxas baixíssimas. Temos a segunda taxa de remuneração mais baixa de toda a zona euro. Como recompensa pelo saque que fazem ao povo, os gestores bancários aumentaram-se em 20% no último ano. E, como a banca pertence, em cerca de 80% ao capital estrangeiro, os “muito bons resultados” do setor nem sequer ficam em Portugal.
Há que reconhecer o impacto real das privatizações e de negociatas publico/privado desenvolvidas durante décadas. Estamos colonizados em setores de atividade vitais, e prisioneiros num brutal enredo de exploração.


 
 
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Manuel Carvalho da Silva



 
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