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25-11-2022        Público

S. Teotónio é um dos fundadores da Coimbra onde vivo. Na Baixa, junto ao rio, fez-se maior na companhia de outros monges cónegos regrantes de Santo Agostinho. Estaria por aqui quando se fundou Portugal, lá no fundo dos tempos, no século XII. Conheceu Afonso Henriques, esteve em Jerusalém, contactou com os mouros que por cá viviam, terá sido amigo de muitos, inimigo de outros tantos. Produto e produtor do seu tempo, é o primeiro santo português.

São Teotónio é também nome de uma das mais importantes freguesias no Portugal do futuro. Com 347,25km², é uma das maiores freguesias portuguesas. No Alentejo litoral, concelho de Odemira, junto ao Atlântico que nos permitiu dar-nos a ver ao mundo, há uma freguesia em que a população cresceu mais de 58% no intervalo dos Censos de 2011 a 2021. Nunca houve tantas pessoas a residir em São Teotónio desde que há Censos.

Num tempo em que quase todo o país perdeu gente, uma freguesia do Sul ganhou habitantes e enfrenta hoje o futuro com mais esperança. O importante destes dados é que os novos habitantes de Odemira não nasceram portugueses. Nasceram em locais com nomes tão estranhos como Thsug, Lho ou Kumpur, entre outros, no Nepal; em Mathavanga ou em Ramnarayanpur, entre outros, no Bangladesh; ou noutros locais do Sudeste asiático, em países como o Sri Lanka ou na Indonésia, na Tailândia ou em Timor-Leste. Saíram da sua “zona de conforto” e vieram trabalhar para São Teotónio. Fizeram-no porque o conforto dos seus (lá) depende deles e delas (aqui).

Em Portugal, felizmente, diriam alguns, não encontraram o sistema Kafala que ainda vigora em países do Médio Oriente para onde migraram os seus vizinhos, amigos e familiares. Aqui não precisaram de um “padrinho” que lhes garantisse acesso ao trabalho, à habitação, à saúde. Aqui encontraram um contrato de trabalho digno à sua espera, uma remuneração condicente com as suas habilitações e a sua produtividade, tempos de trabalho humano, pausas para descansar. Em São Teotónio todos os amanhãs cantam, dizem alguns com olhos doces.

Em Portugal, felizmente, não encontraram um sistema que explora o seu trabalho em temperaturas acima de 50 graus à sombra, como no Qatar ou no Dubai. As temperaturas que enfrentaram sob um céu de plástico não têm a mesma escala nem o mesmo horizonte. As casas sobreocupadas, os contentores, as ruas em que habitam são bem melhores do que as dos países do Médio Oriente para onde migraram os seus vizinhos, amigos e familiares. Aqui o patrão explorador é mais humano, o clima menos agreste e o salário é mais compensador.

Em São Teotónio não há sobreexploração do trabalho e do trabalhador. Em São Teotónio os trabalhadores não tiveram de pagar aos traficantes de seres humanos para poderem trabalhar nas estufas. Os frutos vermelhos de São Teotónio são um produto do efeito da estufa em que se recria um ambiente artificial para aumentar a produtividade natural. Tudo é perfeito em São Teotónio, aldeia do mundo. Só que não (como se diz agora).

São Teotónio é uma freguesia do concelho de Odemira, Portugal, mas podia ser um qualquer outro local do mundo onde ser imigrante é ser parte de um mundo do trabalho altamente segmentado onde milhões de trabalhadores são explorados, trabalham mais horas do que o aceitável e recebem salários tão baixos que a armadilha da pobreza faz parte da sua árvore genealógica. Os construtores do mundo, os agricultores do mundo, as costureiras do mundo, os pescadores do mundo vêm todos dos mesmos sítios: do Bairro dos Pobres e da Aldeia dos que nada têm.

Os trabalhadores que construíram o Qatar não são padrão FIFA, mas deviam ser. Os seus direitos são os nossos direitos e deveriam ser respeitados plenamente. Quando a FIFA censura braçadeiras, declarações dos jogadores, protestos nos estádios, liberdade de expressão, o que está a fazer é a tornar o mundo pior. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada e proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (resolução 217 A III) em 10 de dezembro 1948, é um projeto de humanidade em construção. Cabe a cada um de nós fazer cumprir estes princípios, no dia a dia, todos os dias.

A hipocrisia de gritar contra a FIFA ou contra o Qatar e calar o que se passa em São Teotónio impede-nos de perceber o mundo em que vivemos. Nada deve impedir o Presidente da República de ir ao Qatar e falar de direitos humanos e depois ir ver a bola (ou vice-versa). Nada deve impedir que os nossos governantes visitem São Teotónio e nos mostrem que as histórias de exploração laboral, sobreocupação das casas, racismo e xenofobia fazem parte de um passado a que não voltaremos. São Teotónio e o Qatar são duas moedas com a mesma face.


 
 
pessoas
Pedro Góis



 
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