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30-09-2022        A Tarde [BR]

Há poucos dias das eleições deparo-me com a leitura de um curioso livro sobre o escrutínio público no Brasil: “A mão e a luva: o que elege um presidente” (2022).

Escrito pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida e o geógrafo Tiago Garrido, a publicação busca compreender o papel da opinião pública no cenário (re)democrático nacional de 1989 a 2018. São mais de 300 páginas dedicadas a entender as idiossincrasias da República brasileira sob o manto da crise estrutural do capital.
O que chamou-me a atenção, a priori, foi o título inspirado no romance homônimo de Machado de Assis (1874). Publicado na forma de folhetim, a história relata as peripécias da jovem baronesa Guiomar para escolher, entre três pretendentes, o melhor cônjuge. Com personalidades nem sempre antagônicas, os postulantes são a caricatura da burguesia ascendente. De forma sutil, Machado provoca no leitor/a uma interação no processo de escolha ao desfiar no novelo destas personas a tênue linha que separa as virtudes dos vícios.

Em conformidade com o livro de Almeida e Garrido, a luva que se encaixa melhor na mão nem sempre possuí as características ideais, mas atende ao universo paradoxal da democracia liberal, dos interesses do capital. Se os dedos podem dissimular estratégias de reforma fiscal, contenção inflacionária, superação de insegurança alimentar, (re)orientação energética, respeito às diversidades etc. etc. etc., o que nos surpreende é que os sentimentos de sobrevivência individual suplantam qualquer iniciativa de racionalidade comunitária para além das promessas de campanha, dos comícios e motociatas no calor do momento.

Para justificar minha assertiva continuarei a servir-me de Assis, mas agora de um conto cada dia mais contemporâneo a realidade nacional. Em “Suja-se gordo!” (1906), o bruxo do Cosme Velho esgrima com o poder das instituições e com a constituição da Justiça para desnudar o impudico Estado brasileiro. Assim, ao travar embate com o adágio biblíco, “não queirais julgar, para que não sejais julgados”, desfralda o discurso de impunidade no presente histórico nacional, mas ausente da realidade jurídica-eleitoral. “Suja-se gordo! Queria dizer que o homem não devia levar a um ato de infração legal sem a grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suja-se gordo!”.

Se as páginas da vida são como os aprendizados da História - tanto no livro de Almeida e Garrido como nos escritos machadianos - passadas umas sobre as outras, após lidas logo serão esquecidas. Afinal, no teatro do absurdo eleitoral, o lema é suje-se como lhe parecer, pois o que consagra a luva é o tamanho da esmola deles. Desculpe-me, caro leitor/a, do tamanho da tua mão. Da tua mão!

 


 
 
pessoas
Antonio Carlos Silva



 
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