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27-07-2022        A Tarde [BR]

O Centro de Estudos Globais da Universidade Aberta  promoveu o I Curso de Verão em Literatura, Humanismo e Cosmopolitismo (Portugal, 2022). Sob o tema do exílio - de Sófocles, passando por Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, a Joyce - foram 17 sessões comprometidas em abarcar essa temática-chave para (tentar) compreender a dissidência como base de uma sociedade verdadeiramente democrática. Em termos políticos, poder desfrutar da Vida com as mínimas condições para não refrear habilidades, capacidades e inteligências inatas. Socialmente, apreender a respeitar alteridades. Reconhecer que o nosso vínculo ético está enredado na rica tessitura étnica, cultural, racial e de gêneros.

Nesta incursão em busca de compreensão, o fenômeno do exílio ultrapassa as barreiras do ostracismo e questiona a legitimidade do Estado e suas instituições em controlar e determinar costumes, padrões de comportamento, em total incongluência com os anseios do indivíduo.

Entre tantas e substanciais apresentações destaco a realizada pela Dra. Vanessa Cavalcanti (PPGNEIM/UFBA): “Lá longe: narrativas orais e escritas de migrantes”. Frente às idiossincrasias de um Mundo manipulado pela ditadura do capital (em sua vertente mais visível: masculina, branca e ocidental), Cavalcanti, ao abordar o exílio na perspectiva dos movimentos migratórios, sutilmente desvela a falácia do “novo” ordenamento mundial que, entre guerras de posicionamento econômico e legitimação ideológica, não consegue solucionar o problema estrutural da crise. Ao revés, intensifica a barbárie presente no atual quadro do “capitalismo em declínio”.
Com base na antologia “Lá longe, a paz: a guerra em histórias e poemas”(2001),  Cavalcanti discorre criticamente sobre a morte em vida na sociedade produtora de mercadorias. Em particular de mulheres migrantes - em recentes conflitos na Síria, Palestina e Ucrânia - que são relegadas ao papel de reprodução e, deste modo, dissociadas da geração de valor.

Assim, ao reivindicar o papel de Cassandra, ela enfatiza a dialética do exílio ao apostar na transformação histórica do nosso próprio devir. O destino, aqui em diálogo com Sófocles (que sofreu abordagem filósofica de Bruno Venâncio, coordenador do Curso supra, em sessão dedicada ao “Édipo Rei”), não é determinado por forças exteriores, mas, consoante Cavalcanti, passível de transformação. O nosso exílio, existencial e trágico, exige respostas lúcidas e reconhecimento do absurdo sistêmico que críamos. A desorganização da Vida conduz às violências e alienação de direitos. Afinal, o destino é como a liberdade - esse elemento ético e plural indispensável para modificar o vigente - e ambos “são inseparáveis filhos da mesma terra” (Albert Camus).


 
 
pessoas
Antonio Carlos Silva



 
temas
literacia    democracia    exílio