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26-04-2022        A Tarde [BR]

Quando cidades, vilas e aldeias de Portugal são tomadas de vermelho, a simbologia nos remete imediatamente aos “cravos da liberdade”. O 25 de Abril não é tão somente um feriado, mas a expressão de uma sociedade que relembra quase meio século do fim de um período nefasto (infelizmente não circunscrito às terras lusitanas, alcançando América Latina e boa parte do continente africano).

Ontem, vozes femininas transcritas para lugares de passagem, ruas lisboetas, mencionavam a ideia de liberdade, anotadas em pensamentos, poemas ou aforismos. Contando com 48 mulheres, seja de autoria de escritoras, poetas e cantoras, reforçam a busca por sair de uma fase em “preto e branco”. Podemos destacar citações grafitadas em calçadas: “o mal alimenta-se sempre do silêncio” (Filipa Leal) e “enquanto houver gente a dormir no chão é dia de revolução" (Ana Deus). Tais frases são universais, assinalam a necessidade de pensar e agir em prol de direitos e de maior reforço à universalização das bases democráticas.

Lembrar é não esquecer. É revisitar a História diariamente para (re)definir o que nos trouxe até esse ponto civilizatório, pois não há caminhos para a democratização sem a compreensão dos fenômenos políticos e sociais que realizam o sonho libertário. Tampouco existe liberdade sem igualdade.  Por isso, vale resgatar que a luta contra a barbárie foi expressa nas letras de três inesquecíveis mulheres. Maria Teresa Horta (ainda Viva nas ruas), Maria Isabel Barreno e Maria Velho, nas suas “Cartas Portuguesas” (1972) antecipavam algo essencial para abertura democrática: a constante denúncia a qualquer forma de opressão. Seja em territórios d’além mar, nas guerras de “independência”, na estrutura paternalista escolar ou na ausência de representatividade étnica, racial e de gênero na composição da Assembleia da República.

Nesses “jardins de cravos” as palavras do passado revelam no presente o pleito por tempos e contextos mais justos. Tal como “Grândola Vila Morena” (1964), canção de Zeca Afonso. Criada para homenagear a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, coletividade reconhecida por sua forte oposição à ditadura salazarista, a música foi o sinal para que militares iniciassem a conflagração e, hoje, hino. Transformar o insuportável em tempos menos sombrios – através de palavras e ações - é buscar a emancipação em tempos instáveis. Deste modo, as artes são arautos transformadores. Entre abril e maio, marcas de revoluções e guerras, retomemos a ideia de compromisso social. Voltando à poetisa angolana Djaimilia Pereira de Almeida, no chão da via pública deixou palavras que cultivam: “cuida da liberdade como cuida do teu jardim”. Planteamos mais cravos vermelhos.


 


 
 
pessoas
Antonio Carlos Silva
Vanessa Ribeiro Simon Cavalcanti



 
temas
história    democracia    fascismo    25 de Abril    liberdade