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11-04-2022        A Tarde [BR]

Em tempos sombrios, que insistem em perdurar, celebrar a vida é um ato de resistência. Para tanto, resgato na memória musical o ímpeto da mudança, os sons da urbe captados pela composição sinfônica desse “novo” mundo. Estou a mencionar a 9ª. Sinfonia, composição em Mi menor (opus 95) de Antonín Dvorák (1841/1904). O músico checo, que na última década do século XIX, esteve a frente do Conservatório de Nova Iorque, ficou impressionado com o pulsar ininterrupto da cidade, que no espaço de poucos dias, se metamorfoseava em gigantes construções apontadas para o céu. A cidade, foco de diversidade etnico-racial, repelia o dissenso social e punia as almas refratárias com o não reconhecimento de sua condição citadina. Para os migrantes - exilados, apátridas, refugiados etc. - que chegavam aos milhares, a Liberdade era apenas uma ficção em aço e cimento. Feita de argamassa, oca por dentro e destituída de fraternidade, a estátua que representava o sentimento de emancipação carecia de iluminação.

Mais um símbolo, menos significado, essa alienação (política, econômica e cultural) não impedia que as pessoas marginalizadas sustentassem as construções. Pelo contrário, o formigueiro humano de cores, humores, tendências e odores exigia presença e ansiava por ocupar espaços. (In)conscientemente estavam a lutar por seus direitos. Direito de Ser (humano) para além das imagens capturadas pelas câmaras de ontem e hoje. Entre a icônica fotografia de Charles C. Ebbits, “Almoço no topo de um arranha-céu” (Nova Iorque, 1932), aos corpos sem movimento em Bucha (Ucrânia, 2021), vidas têm preço.

Em comum, independente da localização geográfica e aderentes à democracia do Progresso, uma questão-chave se mantém: vidas racializadas valem menos? Sob os escombros de uma guerra civil (nada) silenciosa, os edifícios se multiplicam, os corpos sacrificados também. Pessoas são esquecidas as margens das inúmeras esquinas. Famílias são despossuídas e impedidas de reflexão (leia-se luto). Se antes os corpos eram as buchas dos canhões, a linha de frente nas guerras imperialistas, agora perante oss efeitos da colonização mental, são encontrados inertes nas ruas da Palestina, Iêmen, Nigéria, Síria, Mianmar e, mais recentemente, Ucrânia. Sem nenhum Salvador, todas submetidas ao poder do capital.

Indiferentes aos apelos de Dvorák, que influenciado pelo negro spirituals, acreditava que a música (linguagem multicultural) seria a redenção para outro mundo melhor, caímos dos andaimes de uma estrutura social em que os seus alicerces estão em contraposição à Vida. Até quando, em coro com Chico Buarque (Construção, 1971) acabaremos no chão, feito um pacote bêbado, morrendo na contramão atrapalhando o sábado?


 
 
pessoas
Antonio Carlos Silva



 
temas
liberdade    música    democracia    resistência