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09-04-2022        Jornal de Notícias

Conhecemos a história da guerra no caminhar das sociedades humanas, os seus pressupostos fundamentais, as suas causas e efeitos.

Queríamos acreditar que o avanço do conhecimento científico e tecnológico, com as suas potencialidades positivas e negativas, associado à possibilidade de se ampliarem muito as relações e as interações humanas à escala global, haviam de reduzir as guerras e as barbáries que lhes estão associadas. O estilhaçar da organização da sociedade ucraniana que está a ser feito pelo poder russo e o sofrimento que causa despertam-nos dessa ilusão.

Se queremos travar o caminho para o desastre total temos de nos dar ao trabalho de pensar muito mais profundamente e de, individualmente e coletivamente, sermos mais ativos nos planos social e político. Precisamos de ter em conta as nossas raízes, as culturas e espaços onde estamos, mas também as dos outros que podem estar muito distantes de nós.

Tem sido muito citada a frase milenar "se queres a paz, prepara-te para a guerra", para justificar caminhos que apontam não o preparar para a guerra, mas sim o fazer e ampliar a guerra, numa escalada sem fim, com crescente perigosidade das suas componentes. Este cenário assustador é agravado pelo facto de proliferarem sistemas de governação e de exercício de poderes - organizados em oligarquias, em democracias iliberais, em semidemocracias ou em democracias liberais - que, de forma mais aberta ou camuflada, estão em guerra contínua contra os seus povos, desde logo pela apropriação indevida de recursos.

Esta semana a revista "Forbes" divulgou a lista atualizada dos indivíduos mais ricos do Mundo. A fortuna que ocupa o primeiro lugar é ligeiramente superior ao volume de riqueza produzida em Portugal num ano. Nos dez lugares de topo surge um conjunto de homens, predominantemente norte-americanos. Só existe espaço para um francês e para um indiano.

Serão estes os mais ricos do planeta? Qual a dimensão real das suas fortunas? Desconfio que ali só constam as fortunas semilegais ou a parte legal das fortunas daqueles indivíduos. Entretanto, além deles haverá oligarcas de várias origens, senhores das monarquias, emiratos e sultanatos de regimes obscurantistas e absolutistas que se assenhoraram do petróleo, imperadores dos negócios armamentistas detentores de fortunas incalculáveis. Não raras vezes, os negócios entre todos eles fluem sem qualquer preocupação com direitos e valores humanos e políticos. E em todos os regimes, de formas mais diretas ou indiretas, os muito, muito ricos estão sempre no cerne dos poderes instituídos, ou impõem-se como poderes fátuos dominantes.

Por certo, nas democracias liberais e ou plurais, em que vivemos, há mais transparência e algum controlo, mas não nos esqueçamos de que nelas o "roubo legal" é cada vez maior e mais refinado. E que as promiscuidades entre os poderes, as injustiças e as desigualdades que proliferam são as causas principais da desconfiança crescente nestas mesmas democracias. A guerra que hoje nos preocupa, que odiamos e queremos que acabe, tem as suas causas e caraterísticas próprias, mas não está desligada de outras guerras contínuas contra os povos.

Tenhamos presente que os muito, muito ricos gostam do estatuto de filantropos, mas não esqueçamos que nunca cederam riqueza e privilégios sem muita luta. Será sempre preferível a fadiga da luta contínua, aos horrores da guerra.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
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