Centro de Estudos Sociais
sala de imprensa do CES
RSS Canal CES
twitter CES
facebook CES
youtube CES
08-04-2022        Público

À medida que se acumulam notícias e testemunhos de violações perpetradas pelas forças russas na Ucrânia, cresce a indignação perante o exército invasor, exigindo-se que os responsáveis respondam perante a justiça. Esta salutar mobilização não deve, porém, confundir-se com os discursos incendiários que, em tantos conflitos, utilizam os corpos de mulheres violadas como figura de retórica destinada a desumanizar o inimigo como monstro e justificar a escalada da violência. É preciso olharmos para a violência sexual na guerra como algo complexo e multifacetado, bem como é fundamental delinearmos estratégias de justiça e reparação a médio e longo prazo.

A violação em conflitos armados, antes considerada uma consequência “inevitável” da guerra, tende atualmente a ser entendida como arma de guerra, usada em situações de tortura de prisioneiros/as para obter informações e como meio de punição e humilhação com o objetivo de aterrorizar e subjugar populações civis que resistem ao invasor. São estas explicações que estão a ser avançadas para descrever o que se passa na Ucrânia. O conceito “violação como arma de guerra” tem-se revelado pertinente em algumas situações, mas também muito limitador pelas várias simplificações e invisibilidades que acarreta. Desde logo, não abarca as numerosas “violações oportunistas” que tiram partido da extrema vulnerabilidade da população civil e do caos criado pelas guerras.

É certo que a guerra na Ucrânia enquanto invasão se assemelha ao tipo de conflito em que as violações são cometidas tendencialmente pelo lado invasor contra a população civil que resiste. É preciso, porém, estarmos atentos a possíveis ângulos cegos desta visão. Desde logo, não devemos esquecer que a invasão russa se situa no seguimento de um conflito de vários anos com epicentro nas regiões separatistas, e no qual foram reportados numerosos casos violência sexual.

Vale também a pena termos em conta o que aprendemos com conflitos anteriores. Recordemos, por exemplo, as guerras de desintegração da ex-Jugoslávia. Na altura prevaleceu uma narrativa em que os violadores eram apontados como sendo sobretudo homens sérvios e as vítimas essencialmente mulheres croatas, bósnias muçulmanas e kosovares. Esta narrativa teve um papel importante na mobilização da opinião pública dos países ocidentais no apoio às intervenções e aos bombardeamentos da NATO. Mais tarde, percebeu-se os limites desta narrativa. Embora muitos estudos considerem que foram de facto as forças sérvias que mais violações cometeram, houve também numerosas violações de mulheres sérvias cometidas por croatas, bósnios e kosovares, bem como um número significativo de vítimas masculinas. Soube-se também que as constelações de violência sexual nestas guerras eram muito mais complexas e heterogéneos do que os media nos faziam crer. Uma parte considerável da violência sexual prendeu-se com as atividades de grupos criminosos envolvidos no tráfico de mulheres e raparigas para redes transnacionais de prostituição forçada.

Sabemos também que o pós-guerra nesses novos países foi marcado por elevados níveis de violência de género. De facto, os conflitos armados costumam ser acompanhados pelo aumento da violência contra as mulheres, nomeadamente violência doméstica, no interior das sociedades envolvidas na guerra.

Devem os exemplos da ex-Jugoslávia e de muitos outros conflitos armados ser usados para relativizar os relatos que nos chegam da Ucrânia com o habitual “todos os lados violam” ou “a violação sempre foi usada pela propaganda de guerra”? Obviamente que não! Para além de estes discursos trazerem implícitas a normalização e a banalização da violência sexual, há que recordar que os estudos sobre a violência sexual indicam que, embora as violações tendam a ser cometidos por todos os lados envolvidos numa guerra, há de facto conflitos em que isso não é assim, já que há um lado que comete o crime em maior escala ou é até o único a cometê-lo. Todavia, alguns dos ensinamentos mais importantes que podemos tirar dos estudos sobre violência sexual prendem-se com a necessidade de complexificarmos o que entendemos por violência sexual em cenários de guerra e de termos em conta os seus efeitos a longo prazo.

As guerras costumam criar contextos sociais em que a violência sexual tende a aumentar e não apenas devido às ações dos militares. O caos e a vulnerabilidade económica criados pela guerra, bem como os fluxos migratórios que as acompanham, são um terreno fértil para as atividades de grupos criminosos que operam quer através de raptos quer de falsas promessas que levam muitas mulheres, adolescentes e crianças a cair nas malhas de crime organizado ou simplesmente a recorrer ao sexo como moeda de troca em busca de proteção e meios de subsistência.

Por isso, é necessário que a atual indignação perante as notícias que nos chegam da Ucrânia não se esgote na retórica anti-Putin nem se limite à exigência de punição dos responsáveis. Deve ser dada prioridade às necessidades das vítimas dos diversos tipos de violência sexual. Isto implica que, por muito bem-intencionados que sejam os discursos de heroicização das mulheres violadas e os esforços de homenagem, há que pensar sobretudo em iniciativas políticas que as ajudem a reconstruir as suas vidas. O reconhecimento político deve passar por apoios concretos a médio e longo prazo (cuidados médicos, acompanhamento psicológico, acesso a emprego digno, proteção) e resistir a silêncios e à criação de hierarquias entre vítimas. Apenas quando conseguirmos promover políticas de reconstrução atentas às necessidades materiais e quotidianas de quem passou pelas diversas formas de violência sexual de um cenário de guerra, estaremos a promover estratégias eficazes de justiça e reparação para com as vítimas.


 
 
pessoas
Júlia Garraio



 
temas
vítimas    guerra    violência sexual    justiça