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25-09-2021        Jornal de Notícias

Ao ler o discurso de António Guterres na abertura da 76.ª Assembleia Geral da ONU, ocorre-me uma sugestão aos professores do Ensino Secundário e Superior: encontrem forma de o distribuir aos alunos, com pedido de leitura e, em cada turma, descubram uma aula apropriada - cabe na maior parte das disciplinas - onde possa ser feita uma pequena reflexão e discussão sobre ele.

O seu conteúdo não é um rol de más notícias de um arauto da desgraça, mas sim a identificação de uma parte significativa de problemas que a sociedade humana deve encarar.

Na sua qualidade de Secretário-Geral da mais importante instituição mundial, afirmou que, "O nosso Mundo está à beira de um precipício e caminha na direção errada. Nunca esteve tão ameaçado, nem tão dividido". Parece-me que não exagerou, mas a frase vai ser deitada para o caixote do lixo. Os grandes poderes económicos e financeiros, que se alimentam das divisões e de empurrar contínuo de milhões de seres humanos para o precipício, estão em condições de dizer "os cães ladram, a caravana passa". Além disso, foi bem evidente que muitos países têm, em altos cargos do Estado, irresponsáveis e oportunistas de várias matizes e até autênticos facínoras políticos, como Bolsonaro.

Guterres mostra que cada "crise" é um novo trampolim para ampliar desigualdades - como vergonhosamente acontece com a pandemia covid-19 -, para reforçar mecanismos de exploração, fragilizar valores éticos, evidenciar a arrogância e os mais obscenos egoísmos. A maioria dos seres humanos vão sendo atomizados, acantonados no individualismo, distanciados do papel das organizações e instituições das democracias.

Muitos desaguam nos becos dos medos, da desconfiança, da autoflagelação. Está criado o enredo perfeito: bloqueados projetos alternativos, enfraquecida a análise crítica e a força anímica com que se rasgam horizontes. Mas, também desta vez não estamos no fim da história.

No manifesto internacional do movimento ambientalista "Fridays for Future" que convocou a Greve Climática Estudantil desta sexta-feira, constatam-se alertas para a relação entre problemas ambientais e sociais. Contudo, a juventude é todos os dias empurrada para as superficialidades das aparências e dos consumos, até em termos estéticos. Os valores para uma socialização saudável são alcunhados de velhos, aproveitando o facto de haver novas formas de os considerar.

Hoje, na contratação de jovens quadros altamente qualificados, começa a ser comum oferecer um salário de mil euros ou pouco mais, acompanhado da sugestão: "Vai estar parte do tempo em trabalho remoto, vá viver para o interior, pois com mil euros faz lá uma vida folgada". Onde está o direito a um salário justo? Há cada requinte nos mecanismos de exploração!

Surgem bem identificados por António Guterres grandes campos de problemas com que se depara a Humanidade: a paz; a crise climática; o fosso entre ricos e pobres; a desigualdade de género; o acesso ao digital; e a disfunção e ruturas entre gerações. E também os ancoradouros da "Nossa Agenda Comum", nomeadamente, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, declaração essa que assume, sem equívocos, os direitos fundamentais do trabalho como direitos humanos. Sendo o trabalho transversal aos campos enunciados, a quase ausência de alertas objetivos para o seu valor e centralidade é uma lacuna.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
direitos humanos    ONU    educação    humanidade