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01-03-2021        Rua Larga

No contexto da presente pandemia, tem-se visto sublinhar, com alguma frequência, a importância da leitura ou de outras formas de consumo cultural como forma de fazer frente aos problemas suscitados pelo isolamento ou pelo confinamento forçados, distraindo das preocupações de um quotidiano opressivo e proporcionando uma fuga para outros mundos. Esta noção, no fundo, terapêutica, do papel da literatura ou das artes não pode ser mais oposta a um conceito de Humanidades. Não é, na verdade, na aceitação pacífica do estatuto de «ciências da compensação», como lhes chamou em tempos o filósofo alemão Odo Marquard — leia-se, compensação dos défices da modernidade —, que pode residir o futuro das Humanidades. As Humanidades seriam, efetivamente, muito pobres e largamente irrelevantes se se satisfazessem com o papel residual ou supletivo que lhes é assim atribuído — o seu futuro está, pelo contrário, na capacidade que sejam capazes de demonstrar de se ins - talarem no âmago da contemporaneidade, produzindo formas de conhecimento do mundo que, de outro modo, não poderiam emergir.

Num relatório de larga repercussão com o título As Humanidades Hoje, publicado na Alemanha, em 1991, e assinado por um coletivo que integrava, entre outros, Jans Robert Jauss e Reinhart Koselleck, definia-se as Humanidades como produtoras de um «saber orienta - dor» — e não de um saber simplesmente funcional ou instrumental — e apontava-se o desiderato da «antropologização do conhecimento» como o seu escopo fundamental — entenda-se, antropologização da globalidade do conhecimento, incluindo o produzido pelas chamadas ciências exatas. Trinta anos passados, este desiderato mantém plena pertinência e, pode mesmo dizer-se, revela uma acrescida premência. No entanto, algo mudou, entretanto. Sendo certo que ser radical é saber ir à raiz e que a raiz do ser humano é o próprio ser humano, como escreveu Karl Marx em páginas da juventude, é determinante reconhecer, como tem feito o pensamento dito «pós-humanista», que a essencial pedra angular da tradição humanista, a conceção do ser humano como «medida de todas as coisas», está irremediavelmente abalada nos seus fundamentos. Esta será, porventura, a mais marcante lição da COVID-19, o reconhecimento a que obriga do muito que não conhecemos e da forma como o pressuposto essencial da modernidade, a capacidade de controlo ilimitado da natureza, é, afinal, essencialmente, precário e falacioso. Contra a arrogância de uma impensada ideologia do progresso, impõe-se, pelo contrário, como há muito escreveu Boaventura de Sousa Santos, um conhecimento prudente, um conhecimento produzido na plena consciência da vulnerabilidade e dos limites do ser humano.

A questão, reformulada nas condições de um século XXI em que a ameaça da catástrofe se mantém omnipresente, obriga, no fundo, a regressar a um problema central do Iluminismo: como compatibilizar a racionalidade objetiva do conhecimento, garantida pelo progresso das ciências, com a moralidade subjetiva da ação. Por outras palavras, se a conceção moderna de racionalidade, como lembra Stephen Toulmin na sua obra Cosmopolis, the Hidden Agenda of Modernity, representa um «ideal descontextualizado», torna-se necessário reconhecer que o pensamento e a ação não devem ser apenas racionais, mas também razoáveis. Isto é, devem criar condições para se deixarem nortear por uma atenção muito próxima à diversidade social, cultural e intelectual, e à pluralidade de um mundo que sempre extravasa qual - quer modelo que dele possamos construir.

Se os processos de globalização e a revolução digital RL #55 confrontam as Humanidades com lógicas radicalmente descontextualizantes, a atitude profundamente contextualista implícita na «razoabilidade» advogada por Toulmin, mais atenta à contingência do que às regularidades deterministas, mais próxima do particular e do concreto do que da generalização abstrata, aponta às Humanidades um papel fundamental. As Humanidades, com efeito, só têm futuro se forem capazes de abandonar, de uma vez por todas, a lógica defensiva que as condena a uma progressiva irrelevância, assente na perceção equivocada de que exige um qualquer território que lhes é específico e cujas fronteiras cumpre ciosamente defender. Por outras palavras, cabe às Humanidades pensar transversalmente os domínios autonomizados pela modernidade, em vez de se resignar a essa autonomização ou de reivindicar uma espécie de território exclusivo. Ou, dito ainda de outro modo, como defende o relatório atrás citado, não se trata de tomar como objeto a «cultura», mas sim a forma cultural do mundo.

Se existe um fundamento epistemológico básico para as Humanidades, esse fundamento é o de uma epistemologia da fronteira, isto é, o conhecimento produzido pelas Humanidades é, por definição, um conhecimento fronteiriço, porque assente na permanente negociação, no âmbito das práticas sociais, de espaços de articulação, desde logo, os que estão inscritos na natureza dialógica da linguagem e do discurso. É importante ter presente que os processos de diálogo, confrontação, interpretação, tradução, que constituem o cerne de uma definição das Humanidades, se desenrolam ao longo de fronteiras não simplesmente pré-existentes, mas que são permanentemente constituídas e reconfiguradas pela própria relação dialógica. Estes processos são historicamente contingentes e, enquanto tal, são essencialmente abertos e, por definição, sempre inconclusos.

São muitas as implicações que decorrem destes postulados e que não é possível desenvolver aqui. Entre essas implicações, uma das mais importantes é, seguramente, a libertação daquilo a que Hans Ulrich Gumbrecht chamou o «trauma de nascença nacionalista» — isto é, a radicação das Humanidades num conceito estreito de língua e de cultura nacionais — e a abertura para lógicas transnacionais e cosmopolitas, capazes de pensar o local, já não como um domínio fechado, mas sim na sua relação constitutiva com todo o conjunto de dinâmicas que o trespassam, o que explica a centralidade assumida, hoje em dia, pelo conceito de tradução. Esta abertura foi largamente potenciada, nas últimas décadas, pela consolidação dos chamados Estudos Culturais e, em concomitância, dos Estudos Pós-Coloniais. A produção do saber contextual que permite responder à pergunta pelo humano além da abstração de falsos universais ou de ficções de centralidade, encontrou, no âmbito desses estudos, formulações que oferecem às Humanidades instrumentos fundamentais para ir além da lógica defensiva que referi. O postulado de Walter Benjamin de que não existe documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, documento de barbárie encontra condições para poder ser pensado em todas as suas implicações, no âmbito de uma reflexão que se recusa a perder de vista tudo aquilo que resiste à lógica da indiferenciação e à cegueira induzida por essa lógica — a começar pela cegueira perante o sofrimento concreto de seres humanos concretos, vítimas de violência, opressão ou exclusão. Ao mesmo tempo, a produção do conhecimento de umas Humanidades assim concebidas é, necessariamente, auto-reflexiva, isto é, está atenta ao perspetivismo inerente a todos os modos de abordagem e incorpora uma reflexão permanente sobre os meios e condições em que se desenvolve. Deste ponto de vista, mais do que um domínio especializado do saber ou do que uma disciplina, as Humanidades constituem uma metalinguagem crítica que atravessa transversalmente as práticas de produção de conhecimento, desde logo, ao fornecer instrumentos insubstituíveis de crítica da linguagem e do discurso. É também esta auto-reflexividade crítica que define a perspetiva de uma radical contemporaneidade, através da qual as Humanidades constroem a sua relevância social. Deste ponto de vista, também a relação das Humanidades com o passado e a memória culturais, seus objetos tradicionalmente privilegiados, é orientada por um sentido do contemporâneo. Esses objetos, com efeito, estão permanentemente sujeitos a processos de apropriação que são, por definição, processos de produção de presença e de contemporaneidade. Desta perspetiva, a representação da guerra na Ilíada ou os contornos do dilema trágico de Antígona, dividida entre a obediência à lei da cidade e o imperativo da compaixão, são questões contemporâneas.

No mundo contemporâneo, marcado pela tendencial redução da linguagem, a informação e, concomitantemente, pela vertiginosa aceleração global do tempo da informação, a vocação crítica das Humanidades, desde logo, materializada na sua capacidade de estudo e crítica do discurso, encontra um campo de atuação privilegiado. A crítica do lugar-comum implica sempre a acentuação da diversidade da experiência e das virtualidades do conhecimento que esse lugar-comum tende a reduzir a lógicas unidimensionais. Basta pensar, à guisa de breve conclusão, em aspetos correntes do discurso da pandemia e da imagética que lhe é associada. Veja-se, por exemplo, a imagem da «guerra contra o vírus». Ou a imagem de que, devido à pandemia, estamos todos «no mesmo barco». Trata-se de evidentes lugares-comuns e, enquanto tal, de convites à redução da complexidade e à desistência do pensamento. Sim, estamos todos no mesmo barco — do ponto de vista da sua semântica histórica, a imagem do barco tem, aliás, uma longuíssima genealogia —, mas, nesse barco, há, evidentemente, diferentes classes de passageiros e, tal como no Titanic, as probabilidades de sobrevivência dos passageiros de primeira classe são infinitamente maiores. E, se estamos em guerra, então existem apenas aliados e inimigos e existe apenas a lógica do combate, à qual tudo deve ser subordinado, sem que exista espaço para tudo o resto — isto é, para tudo aquilo que constitui a humanidade do ser humano. Manter-nos alertas para a diversidade e complexidade do mundo, incorporar a existência e o sofrimento do outro no quadro do nosso conhecimento do mundo, lutar contra a perda da fantasia, isto é, da capacidade de transposição imaginativa para experiências que não são as nossas, para mundos reais ou mundos possíveis que estão além dos limites da experiência individual — tudo isto são pressupostos fundamentais da abertura ao mundo, e do conhecimento do mundo, que exigem o contributo insubstituível das Humanidades.


 
 
pessoas
António Sousa Ribeiro



 
temas
pandemia    humanidades    COVID-19    consumo cultural