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05-12-2020        Jornal de Notícias

Tem sido noticiado que em 2020 teremos, provavelmente, o maior saldo natural negativo observado no último século.

Perante esta dura realidade, não façamos papel de idiotas que, quando o dedo aponta para o céu, se concentram a observar o dedo. 2020 vai ser o ano de menor número de nascimentos e registar-se-á um aumento de mortalidade, por efeitos diretos e indiretos da pandemia covid-19 e por influência de fatores associados às alterações climáticas. O nosso problema demográfico tem causas profundas, que se situam muito para além da observação destes factos.

No "Relatório Global sobre os salários 2020/2021", da Organização Internacional do Trabalho (OIT), divulgado esta semana, constata-se que, em Portugal, os impactos da pandemia conduziram a uma redução da massa salarial de 13,5%. As causas daquela perda foram os cortes salariais resultantes da aplicação do lay-off simplificado, conjugados com a perda de emprego neste período: no total, mais de um milhão de trabalhadores, em regra com baixos salários, foram atingidos.

Se os países não tivessem adotado subvenções temporárias a perda teria sido ainda mais penalizadora para os trabalhadores com retribuições baixas e para as mulheres. A pandemia continua a aprisionar-nos, os estados não dispõem todos do mesmo nível de recursos para proteger os seus cidadãos, os países ricos servem-se de fragilidades dos que o não são, os mercados agem para propiciar lucro a quem os domina e não para pôr em prática uma "estratégia de recuperação centrada no ser humano" como defende a OIT. O seu diretor-geral, Guy Ryder, afirmou que "O crescimento da desigualdade criada pela crise da covid-19 ameaça deixar atrás de si um legado de pobreza e instabilidade social e económica devastador". Os efeitos desse triste legado na evolução demográfica dos países, como veremos em relação ao nosso, podem ser desastrosos.

Portugal surge, no contexto dos 28 países analisados, como aquele onde é mais dura a perda para os trabalhadores. Depois de Portugal surgem a Espanha e a Irlanda, seguidos dos outros países do Sul da Europa. Este ranking não surpreende face às condições impostas pela União Europeia a estes países, em particular na crise anterior. Isso provocou em Portugal uma brutal vaga de emigração. O que acontecerá agora?

No Barómetro 22 do Observatório das Crises e Alternativas, os seus autores, ao analisarem um dos fatores que pode transformar a crise socioeconómica numa recuperação lenta ou mesmo num declínio, afirmam ser "bem possível que a recuperação económica se inicie mais cedo nos países mais desenvolvidos, o que constituirá um foco de atração dos trabalhadores qualificados dos países periféricos". Significa isto que são imperiosas políticas que evitem uma nova vaga de emigração, ou seja, precisamos de investimento público reforçado e bem feito em setores estratégicos com a prioridade de servir o nosso desenvolvimento, de puxar pelo investimento privado, de melhorar salários, de valorizar o SMN e impedir as remunerações abaixo desse valor, de combater as precariedades.

A perda de população em idade ativa e fértil é uma das principais causas da baixa da natalidade, e será um drama para a evolução demográfica do país. Para o travar é preciso melhorar os rendimentos, as condições de vida e de trabalho desta população.


 
 
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Manuel Carvalho da Silva



 
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