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22-04-2020        Público

Terminei há pouco um pequeno livro que terá publicação próxima no Brasil e, logo depois, também em Portugal. É um livro sobre cidades e as diversas expressões de urbanidade que se desenrolam nelas. Um dos capítulos deste Cidades e Urbanidades dedico a elogiar o ato de caminhar e a revelar como apenas o ritmo humano da caminhada urbana permite decifrar a cidade e as suas expressões materiais, socio-históricas e simbólicas. Do mesmo modo que nós, também o livro foi e continua surpreendido pela turbulência pandémica da covid-19 e o tempo sombrio do pesadelo e medo generalizados.

Caminhar na cidade deixou de ser possível. Por enquanto, queremos crer. É dramático este efeito que suspende tudo o que sabemos sobre as origens da cultura. Foi com os pés que se fez a civilização. Foi a caminhar que pré-históricos seres humanos conheceram e passaram a interagir com outros humanos. Foi assim que se criou a economia, se inventou a política e se aprendeu a fazer a guerra e a construir a paz. Foi a andar, afinal, que se construiu a cidade e se forjaram as nossas com-vivências.

Com as pessoas confinadas em casa, a cidade fica em suspenso. E a cidade suspensa é um oximoro. A sua razão de ser e a sua alma vêm do fluxo, do devir e da mudança permanentes. Uma cidade parada é algo desalmado. Estranham-se nela as ruas sem gente e sem a dançante vivacidade de todos os dias. As escolas e as universidades vazias são paisagens anacrónicas. Como é também desconcertante a paisagem do silêncio urbano que se instala onde antes dominava o ruído. São tristes os cafés, as lojas, os museus, os cinemas e os jardins que anunciam estar “encerrados ao público”. Sem o “público” e sem a rua, a cidade desalmada repele.

Remete, quem dele dispõe, para o espaço privado da sua casa. É profundamente assimétrica, portanto, a possibilidade de concretizar tal recolhimento. Não estou a pensar apenas nos milhares que vivem sem casa nas cidades de todo o mundo. Estou sobretudo a pensar nos milhões que vivem indizível precariedade em bairros frágeis e pobres, slumstownships e favelas, sem qualquer possibilidade de recolhimento físico, nem a protecção política ou social que os retire da maligna e indefesa exposição ao novo coronavírus. Em contraste, habituados a mais sólidas condições de residência, fechados em casa, urbanitas das latitudes norte-globais experimentam agora interagir duradouramente com os “medos dos pequenos números” dos seus agregados familiares.

O isolamento em casa não é alternativa para a falta de urbanidade. Representa antes a sua negação. Por isso, o quotidiano busca distracção e entretenimento. Talvez o redentor computador, que suporta o teletrabalho, sirva também a distracção. Certamente também o refúgio nos e-mails, nas redes sociais, nos jogos online e nas séries televisivas. A torto e a direito. Tudo isso faz com que os sujeitos, dentro de casa, procurem revertê-la, deixar entrar o mundo exterior, e fazer do lar um lugar onde se ensaia um novo ethos, possivelmente progressista e cosmopolita, de diálogo e aprendizagem com outros e as virtudes dos “grandes números” dos movimentos sociais e das multidões.

O enclausuramento tem de ser criativo, também ele. Precisa de refrear a crise e a depressão. Se deixou de ser possível caminhar na cidade e, assim, fazer cultura, política e história urbana, com este confinamento, poderão os sujeitos experimentar um “neonomadismo” doméstico? Nos idos anos de 1794, Xavier de Maistre, militar francês destacado em Itália, foi aprisionado em casa durante 42 dias. Escreveu então o célebre Voyage autour de ma chambre, uma paródia bem ao estilo das narrativas de viagem do seu tempo. “Quando viajo pelo meu quarto “, escreveu, “raramente sigo em linha recta: vou da mesa para a fotografia pendurada num canto; dali, parto obliquamente em direcção à porta; mas (…) se encontro a poltrona durante o percurso, não penso duas vezes e me acomodo nela sem mais delongas”.

Não é a aptidão policrónica de Maistre que estou a recomendar aos modernos enclausurados urbanos. Mas reconheço – inspirado na antropologia de Arjun Appadurai (The Social Life of Things, 1988) e de Daniel Miller (Trecos, Troços e Coisas, 2020) assim como na ensaística de Bill Bryson (A Casa, 2011) – que algo semelhante ao seu nomadismo doméstico se pode praticar nas inesperadas e prolongadas estadias caseiras de hoje. Tudo se passa como se a caminhada tivesse lugar na agora interdita rua da cidade e revelasse a história e a memória dos lugares, ou os saudosos afectos e relações sociais a céu aberto.

Aceite, leitor/a, a sugestão, e prepare-se para ziguezaguear um pouco à la de Maistre. Comece por percorrer, com a família, se possível, munido/a de papel e lápis, o trajecto entre a mesa da sala até à fotografia de grupo dependurada na parede. Registe a sua data/ocasião festiva e o local, sem se esquecer de identificar o seu autor e, por fim, todos os membros do grupo fotografado. Parta depois em direcção ao móvel da sala para recordar como o bibelô colocado sobre o louceiro reserva a memória das férias que passou em longínquas paisagens exóticas. Corrija, não se esqueça, a ortografia das crianças na escrita dos lugares. E prossiga depois, cozinha adentro, a recriar histórias de utensílios e memórias de odores e sabores distantes. Não pare senão quando, já esgotado/a, como de Maistre, não conseguir renunciar a deixar-se cair sobre o sofá. Repita, no dia seguinte, o trajecto por outras “estações” e outros tantos registos da sua caminhada. Recupere fotografias antigas, afague e recorde velhos relógios e registe mesmo a trajectória percorrida pelo pechiché herdado. 

Mais do que apenas criativa, esta deambulação é autobiográfica, sem deixar de ser social. Deixe os objectos lá de casa falar. Eles contam, a si e aos outros, a sua história e a dos seus enlaces, ao mesmo tempo que cada um deles ganha um significado social renovado. Ajudam a restabelecer também as suas relações com o mundo lá fora, fazem recordar as suas viagens, agora irrepetíveis, por fantásticos lugares da sua existência. Validam a identidade colectiva do grupo, agora impossível de voltar a fotografar. Estes objectos e as suas transbordantes circunstâncias são parte do seu capital identitário, tornaram-se parte de si.

Não estão mortas as memórias pessoais e colectivas reactivadas na passeata pelos recantos da casa. Aproveite criativamente, leitor, a reclusão epidemiológica e deixe-se surpreender com elas, agora que não tem a rua à sua espera e a cidade se desalmou. Faça, como Marcel Proust fazia com o chá e a madalena de Combray, e deixe estas memórias involuntárias da sua condição subirem-lhe corpo acima e tomarem conta de si.

Surpreenda a pandemia que nos surpreendeu a todos e o/a reteve em casa. Olhe como está estilhaçada a cidade lá fora. Imagine-a mais bela e democrática, mais justa e sustentável. Não se entregue a pensar como estará depois da crise. Sabe-se que estará profundamente atordoada e convalescente. Assim a deixou a natureza e a covid-19, que grassaram nos territórios devastados do neoliberalismo económico, urbanístico e social da velha cidade. Esta precisa de forças para se recompor e ganhar outros sentidos. Uma coisa é certa: a cidade não poderá renascer sobre os mesmos fundamentos que a dizimaram. Precisa da sua solidariedade.

Como argumenta o filósofo Alphonso Lingis, no seu intranquilo A comunidade dos que nada têm em comum (1994), a solidariedade surge quando alguém se expõe ao nu, ao desamparado e ao moribundo. Empreste, assim, à cidade convalescente e nua, o ethos cosmopolita e crítico reconquistado em casa, em volta dos seus objectos e memórias. Junte-se aos outros que aspiram, também eles, uma outra cidade. Conceda a esta pós-cidade um renovado devir em torno das suas ruas ainda exauridas e dos seus pálidos cafés, teatros, lojas, hospitais e escolas ainda a recompor-se.

A crise trouxe a toda a gente a oportunidade civilizacional de uma tomada de nova consciência política – e, por extensão, de uma totalmente renovada vida urbana – de que a cidade que temos pela frente não há-de decorrer da experiência empírica que conhecemos de justiça social, mas da percepção das graves expressões de injustiça que a bloquearam. Do mesmo modo, ela também não resultará da prática de distribuição equitativa de recursos, mas das suas conhecidas e gravosas desigualdades sociais no acesso a esses recursos. Por fim, ela não decorrerá de uma felicidade e de um bem-estar generalizados, mas da eliminação do sofrimento e da humilhação humana.

Será lento o recompor da cidade pós-cidade e das suas urbanidades. Mas o seu tempo chegará. É assim que se expressam e nos ensinam as crises. Todas as crises criaram, contracorrente, os fundamentos da sua superação. Sejamos solidários no esforço e na aventura de criar outras formas de com-vivência na cidade.


 
 
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