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04-04-2020        Jornal de Notícias

Até na maior adversidade existem notícias positivas. As carências com que nos deparamos para dar respostas aos problemas gerados pela pandemia, estão a colocar em evidência que dispomos de conhecimento e de capacidades que, devidamente mobilizadas e orientadas, podem ser postas ao serviço da produção de bens e serviços essenciais.

Laboratórios do Estado, centros de investigação que não dependem só do Estado, empresas de dimensão diversa estão, no seu espaço especializado ou agindo em cooperação quando é caso disso, a deitar mão dos saberes de cientistas e do saber fazer criativo de outros trabalhadores. Assim se colmatam dependências externas e se asseguram respostas a necessidades prementes. Aceleram-se investigações, readaptam-se linhas de produção e prova-se que, num contexto de normalidade, também será possível, com políticas e motivações adequadas, produzir nacional muito do que se dava como inevitável ter de ser feito no exterior.

Este tempo de emergências, de condicionalismos e sacrifícios que afetam todos (não de forma igual) esbate divergências e faz-nos convergir no que é fundamental. Isso é bom no imediato, logo é de valorizar as convergências que se têm observado na ação do governo e de outras instituições, nos posicionamentos das forças políticas e no comportamento das pessoas. Contudo, é preciso começar a pôr a nu que a resposta aos problemas que estamos a enfrentar e, acima de tudo, àqueles com que nos vamos deparar, exige o reavivar das ideologias e não a supressão das diferenças, ou o absolutismo do pragmatismo. As respostas a uma crise social profunda e a recuperação da estrutura e capacidades da economia reclamam evidência clara de posições ideológicas sobre, por exemplo, o papel do Estado e dos setores privado e social, sobre a afirmação e gestão da nossa soberania.

As consequências desta crise estão a revelar em toda a extensão a insanidade da fragmentação das cadeias produtivas por múltiplas geografias, a que se deu o nome de globalização das cadeias de valor. A rutura dessas cadeias está a ocorrer por força de uma crise sanitária. Mas podia ser por efeito de uma outra qualquer crise.

Numa perspetiva de defesa e afirmação do interesse comum, ter-se prescindindo de capacidade produtiva – fruto das privatizações, de negociatas público/privadas, de imposições comunitárias e de uma utopia globalizadora - em sectores produtores de bens e serviços suporte de vida e outros essenciais foi, por ventura, o maior dos erros das elites governantes em todas as escalas de tomada de decisão. Agora, não só em Portugal, mas até em países mais avançados, faltam bens tão simples como máscaras e equipamentos de proteção contra o contágio. Já antes nos tinham faltado as peças com que se constroem máquinas-ferramentas ou veículos automóveis, têxteis para as confeções, matérias para a produção de calçado, produtos farmacêuticos para medicamentos, produtos agrícolas diversificados. Tudo isso nos continuará a faltar se não travarmos um forte confronto ideológico, que coloque em realce os fracassos do capitalismo que temos vivido.

Não tem cabimento a ilusão de que uma redentora abertura ao exterior nos salva do atraso e da pobreza. Que fique desta crise o imperativo do reforço da capacidade de produção interna.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
pandemia    investigação    ciência    produtividade    COVID-19