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30-01-2020        Público

Na segunda-feira, dia 20 de Janeiro, foi o dia de S. Sebastião, mártir cristão adoptado pelo Rio de Janeiro como seu padroeiro. Quem terá tido a ideia não imaginaria até que ponto esta adopção era uma profecia para os tempos de hoje, em que a cidade se tornou numa das mais martirizadas do Brasil. Conhecemos bem a história da desigualdade social e dos sobressaltos pelos quais o Rio passou desde a sua fundação. Mas nada de tão grave tinha acontecido nas décadas recentes tão é visível no imediato: o lixo acumulando-se nos canteiros, as centenas de sem-abrigo deitados à noite nos passeios, as ruas esburacadas, a suspeição de que um assalto aconteça a cada momento e até a água da rede pública está agora contaminada, obrigando os cariocas que tinham acesso à rede – porque há centenas de milhares que nunca tiveram – a ferver água, açambarcar garrafões, pedir água emprestada aos vizinhos.

Tudo isto não estava predestinado à cidade; uma das mais belas cidades do mundo com as suas casas no meio da floresta tropical, a arquitectura inventiva, uma cidade de encantamento onde bastava caminhar pelas ruas para sentir a sensualidade no ar, ser informal no vestir e rigoroso na cadência musical. E hoje tudo isto está suspenso por incompetência dos governantes – da cidade, do Estado, do país –, da sua impreparação, do analfabetismo cultural, do fanatismo religioso, de um enorme desprezo pelos cidadãos e do racismo nas suas múltiplas formas.

Regresso do Brasil com a forte sensação de ter deixado um país doente para cuja doença o país não estava preparado, não conhecia esta epidemia que atinge os corpos – o social e o de cada um –, não previa os seus efeitos na população, cujo diagnóstico ainda é difícil de fazer porque os instrumentos de análise que possuímos são inadequados a esta epidemia. Podem avançar-se muitas hipóteses, mas a forma gelatinosa como a doença se propagou escapa às terapias conhecidas, mesmo aquelas que surtiram algum efeito nas ditaduras. 

Sim, há indicadores imediatos que ajudam a esclarecer como um grupo de revanchistas, impreparados, narcisistas a um nível patológico invulgar, iletrados cultural e socialmente tomaram o poder na base da mentira e tendo como aliados outro bando de obcecados com a acumulação desenfreada de riqueza, com a retenção doentia de dinheiro e de poder sobre os outros, sob o disfarce da liberdade económica. Doentes, eles propagam e contagiam os milhões de pessoas de bem que se encontram confusos, impotentes, que não encontraram ainda o nome para a coisa e essa coisa é demolidora. O ressentimento é uma dessas maleitas que os atinge, esse sentimento que Freud faria equivaler à cobardia moral, presente em pessoas invejosas e complexadas, para quem são sempre os outros os responsáveis pelas suas vidas desinteressantes.

Mas isto é apenas uma das justificações para a expressão de tanto ódio e tanto rancor onde predomina o ódio contra todos os que são diferentes deles. E sabemos como a linguagem rigorosa, identificar e saber o nome próprio do mal, é um passo importante para o dominar. Como por exemplo é dever chamar nova escravatura à forma como dezenas de igrejas evangélicas criaram em milhões de brasileiros a sua dependência psicológica e material e lhes retiraram a liberdade de escolher, como os têm reclusos pela chantagem e pelo controlo de cada um e das suas famílias. Não apareceu do nada, estava latente no machismo comum, na obesidade sexista do macho, nas manifestações de ódio que rejeitavam o processo das quotas étnicas no acesso à educação ou à administração pública; era evidente no modo como no Brasil muitos dos seus militares eram nostálgicos do regime ditatorial. E como a leviandade com que foram escritos num passado recente muitos editoriais nos media brasileiros desconsideraram e nunca fizeram a avaliação dos terrores da ditadura e assim a branquearam.

Muitos antes de mim já se pronunciaram sobre esta doença, mas não basta ficar por esta tentativa de explicação e, menos ainda, pelos comentários no Facebook e nas redes sociais, que funcionam a maioria das vezes como ‘fio de terra’ da tristeza ou da amargura pessoal. É importante partilhar, mas mais importante é deixar essa trincheira do desabafo e ir mais além. Que fazer? Desconstruir a propaganda das múltiplas instâncias do governo recorrendo a factos, revelando situações concretas – como, aliás, já o fazem certos meios de comunicação como o Intercept e outros, ou comentadores extraordinários como Eliane Brum. Mas é imperativo que seja uma actividade diária, uma oposição diária, evitando reacções imediatas e pouco fundamentadas a partir de argumentos e provas sólidas. Esta é a oposição necessária, diária, que envolva todas as pessoas de bem e, depois, há que as difundir por uma população mais vasta fazendo crescer os auditórios.

Nas semanas que antecederam a segunda volta das eleições foram muitos e muitas os que se foram para as ruas para “virar o voto” a favor do candidato Fernando Haddad. Sabe-se que o resultado das eleições não foi o que estas pessoas desejavam, mas a sua acção foi uma prova fundamental de quanto é importante ir para a rua desconstruir a propaganda continuada do outro candidato e da sua máquina eleitoral. E são essas pessoas que afirmam terem encontrado nesse ‘falar’ em linguagem acessível, e recorrendo mais uma vez a factos, números e dados, a estratégia eficaz para desconstruir o logro e as contradições.

Pois é tempo de voltar a esta estratégia de “virar” (ainda que não haja eleições no imediato; haverá para o ano as municipais), mas “virar” a representação verdadeira da realidade, não na próxima semana, não só nas próximas semanas, mas nos próximos meses, anos, sempre que seja necessário. E, juntamente com este trabalho diário, é imperativo viver, ler, ler muito, fazer teatro e teatros e ir às rodas de samba e cantar, dançar, homenagear os heróis populares brasileiros e a enorme cultura política que o samba tem.

Nesse mesmo dia de S. Sebastião, ao fim da tarde na Rua do Ouvidor, o fizeram centenas de pessoas com um piano de cauda, todas as percussões, as vozes e os corpos. E isto não é retórica nem figura de estilo. É no imediato um modo de evitar que a doença se propague e, até, de a estancar.


 
 
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António Pinto Ribeiro



 
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