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26-10-2019        Jornal de Notícias

Durão Barroso afirmou, no passado dia 22, no congresso da CIP, que “as elites em Portugal não têm estado à altura” da resiliência do povo. O que são elites? Um grupo que integra os melhores, os mais poderosos, os mais ricos? Existem nuances na identificação do grupo conforme o utilizador da designação ou o tipo de questões e objetivos que se querem referenciar. De qualquer modo, está sempre em causa um grupo de indivíduos que assume tal epíteto qualitativo como significando detenção de poder e superioridade em tudo face ao comum dos mortais.

Na esmagadora maioria, os membros das elites frequentam as mesmas escolas e espaços de socialização e assumem-se como predestinados para o exercício do poder. Entendem que ao povo deve parecer natural que estejam sempre no topo. Mesmo que pratiquem gestão danosa de empresas ou bancos, ou cometam crimes políticos, têm direito a prémios de milhões ou a grandes tachos como acontece com Barroso. Trata-se de uma parcela muito decantada de uma classe social. São pessoas que têm sempre muitos negócios entre si, que se movem nos mesmos resorts e voam pelo mundo em executiva ou em jatinhos, ou ainda em barcos privativos.

As elites também atravessam crises existenciais, que podem comprometer a sua reprodução como subespécie. Um sinal desses estados de crise são as ocasionais autocríticas, indispensáveis para as lavagens da face perante a sociedade.

As mil famílias mais ricas do país – a elite do capital - pagam aproximadamente 0,5% do global de receitas do IRS, quando, se seguissem as práticas comuns em países desenvolvidos, deveriam pagar 20 a 25%. São um grupo altamente qualificado na fuga fiscal e na arte de fintar as leis, quando não de as fabricar em articulação com a elite dos grandes escritórios de advogados.

Grande parte da elite empresarial reclama a necessidade de aumentar os lucros para poder fazer mais investimento. Contudo, desde o início deste século, os lucros aumentaram significativamente, mas a percentagem canalizada para o investimento, em particular para o produtivo, foi reduzindo.

Foram as elites que impuseram aos jovens a ideia de que devem aceitar ganhar menos que os seus pais ou avós – como se o trabalho fosse hoje menos produtivo; que a emigração é o caminho de futuro. Assim provocaram a maior depauperização que o país sofreu desde o 25 de abril.

Há hoje regiões do país onde se observa aparecimento de projetos de investimento e ao mesmo tempo continua a emigração de jovens e trabalhadores mais qualificados. Não será que, apesar de discursos de sinal oposto, prosseguem as políticas de baixos salários, a par com outras limitações que tornam impossível uma vida digna nessas regiões? Enquanto os patrões se incomodarem com a atualização digna do SMN, ou persistirem em impor uma política de rendimentos fechada nos temas, nos mecanismos de discussão e nas contrapartidas que só as organizações patronais controlam, não haverá novo modelo de desenvolvimento.

As elites portuguesas dispõem de estudos e propostas concretas para se vencerem atrasos. Só que grande parte delas alimenta-se do nosso subdesenvolvimento. É preciso fazer-lhes uma barrela, forçar o surgimento de gente mais capaz e qualificar o exercício da política.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
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economia    elites políticas    democracia    povo