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25-09-2019        JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias

Francisco Vidal (FD) é um artista a visual que entre os vários géneros que cultiva tem um particular empenho no retrato e no qual é de uma grande mestria. A pintura do retrato segue na história da arte uma linha descontínua. Começa com o objetivo claro de representar quem tem poder, quem o pode exercer e quem tem meios para encomendar a pintura - Ticiano, Velásquez, Rembrandt, Rubens, Reynolds, Gainsborough - até algum declínio na sequência da invenção da fotografia onde Nadar pontifica, como o fotógrafo retratista, de que esta nova arte estaria à espera, mas que regressaria como género de expressão de grande domínio técnico com Van Gogh, Egon Schiele, Kokoschka, Picasso. E quando parecia estar morto, na década de 5o do século passado, regressa com urna enorme vitalidade pelos mestres da pintura do pós-guerra com Hockney, Freud, Paula Rego e, em Nova Iorque, com Andy Warhol que encontra no retrato o meio eficaz, e seu favorito, para expressar a iconografia pop e as figuras do imaginário desta cultura: de Mao Tsé Tung à beautiful people.

Francisco Vidal está mais interessado em figuras menos distantes no tempo e depois da série em construção dos retratos a tinta da china ei-lo a enveredar por urna pintura iconoclasta da comunidade dos seus heróis e amigos. A ideia dos retratos tem uma génese que revela a componente de partilha tão própria ao artista: surgiu um dia em Angola, quando era professor numa turma de arquitetura em Luanda, cujos alunos tinham muito pouca informação sobre artistas e sobre líderes e políticos africanos. Para dar a conhecer aos alunos as figuras de quem falava e a sua importância histórica, FD começou a desenhar os seus retratos. Os primeiros foram dos seus amigos artistas angolanos, a que se seguiram outros, de pessoas sobre as quais achava fundamental escreverem-se as biografias. Tratava-se na realidade daqueles que Francisco considerava serem 'seus pares'.

A série mais recente exposta há uns meses no espaço da Linha d'Água (abril de 2019) era composta, entre outras obras, por cinco retratos de músicos negros: Dj Nervoso, Marfox, Nigga Fox, Dj Nídia e Dj Firmeza. Estes retratos exigem do artista uma outra dimensão física e um esforço suplementar. Estes suportes impõem ao artista toda uma corporalidade e um esforço físico seja pela grande dimensão das telas, seja pelo uso dos materiais. E a ousadia é tremenda pois o suporte intriga: as catanas coladas sobre as quais o artista pinta com acrílico fazem a peça ser pintura ou escultura? E a esta ambiguidade acresce uma outra: sob uma paleta de pintura alegre descobrem-se as dezenas de catanas que, como é sabido, sendo instrumentos de trabalho agrícola, são também instrumentos das revoltas independentistas e das lutas africanas.

E a sua exposição Padrão Crioulo foi de uma atitude política clara já que aconteceu num espaço que tendo sido parte da Exposição do Mundo Português e propaganda do colonialismo é vizinho do Padrão dos Descobrimentos, que glorifica a expansão marítima e colonial. Com uma enorme força simbólica a exposição contribuiu para a desconstrução da narrativa colonial em curso. E como se isso não bastasse os heróis dos retratos do Padrão Crioulo são os portadores de uma Europa crioula que está a acontecer. Talvez seja isso o Afro-futurismo exclama o artista.


 
 
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António Pinto Ribeiro



 
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