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27-08-2017        A Tarde [BR]

Estive recentemente em Salvador, a convite do Ministério Público e do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher da UFBA. Foi uma aprendizagem intensa, em particular sobre a enorme diversidade da cidade e dos combates que nela travam as Procuradoras do MP, as Professoras do NEIM, as Mulheres do Movimento Negro. Estou convicta de que são estas mulheres generosas e valentes que garantirão um futuro mais justo, mais igual, mais solidário, à medida que as suas lutas se ampliarem.

Venho de Coimbra, uma cidade média em Portugal, com uma Universidade com 800 anos, onde se formaram as elites portuguesas e também as elites coloniais que dominariam o Brasil. Vista daqui, Salvador é uma realidade incomensurável. Um pequeno mundo estagnado na sua antiguidade face a um grande mundo imensamente dinâmico. E, porém, em ambos, prevalece a desigualdade, a injustiça, a falta de acesso aos direitos mais básicos de trabalho, moradia, infraestruturas, saúde, educação. Na Universidade, situada no ponto mais alto de Coimbra, por cima de todo o casario, se produzem os estudos científicos sobre estas realidades. Cá em baixo, na Câmara, um poder político medíocre gere a vida quotidiana, ignorando todo esse saber. Encurralada entre a sobranceria dos universitários sobre a banalidade da política, e pelo oportunismo dos políticos, que sabem que a ignorância geral serve, justamente, os interesses e a corrupção, Coimbra decai, com problemas sem soluções há décadas.

A geografia desta cidade espelha uma fratura que não pode existir se quisermos agarrar o futuro. Por amor às minhas filhas, porque percebi que o mundo só será justo para elas, se o for para todas as pessoas, decidi juntar estes dois mundos e entrar na política formal, enquanto deputada municipal. A torre de marfim dos intelectuais tem de ser quebrada para ocupar o espaço do qual os “políticos” de carreira nos alienam para manter o status quo. A educação é, porventura, a maior arma de transformação política. Porém, é necessário o envolvimento na política formal, transformando o sistema a partir de dentro, usando os saberes que possuímos. Facilmente, enquanto intelectuais, criticamos a grande massa dos alienados do sistema, descrentes de políticos “todos iguais, todos corruptos”. Seremos, porém, coniventes com esta descrença se não usarmos o nosso saber na própria política institucional enquanto serviço público e pelo bem comum.

Trata-se de revolucionar o sistema a partir do amor inerente ao ideário humanista. O poder do amor e do saber contra o amor pelo poder. Uma política de causas, informada e desinteressada. É essa a nossa missão


 
 
pessoas
Catarina Martins



 
temas
igualdade    sistema    Coimbra    humanismo    mulheres