Centro de Estudos Sociais
sala de imprensa do CES
RSS Canal CES
twitter CES
facebook CES
youtube CES
10-07-2003        Visão
Não sou adepto da multiplicação discricionária de municípios. Não será por essa via que se conseguirá a redistribuição mais equitativa de recursos pretendida pela frustrada regionalização. Mas há casos e casos e Canas de Senhorim é o caso de uma localidade que merece inteiramente ser elevada a concelho. As perspectivas e as escalas de análise dos comentadores políticos são incapazes de detectar e valorizar os factores que fazem do movimento municipalista de Canas um processo exemplar de luta democrática pelo direito a ter uma voz autónoma nas tarefas de desenvolvimento do país. Eis alguns desses factores.
1. Tratou-se de um genuíno movimento popular, dominado por um forte espírito comunitário caldeado em experiências de trabalho nas fábricas e nas minas e de rico associativismo local e orientado para um objectivo concebido como de participação democrática: a autonomia municipal. Isto explica a tenacidade e durabilidade da luta - o movimento remonta a 1975 - e sua capacidade para manter ao longo de quase três décadas altos níveis de mobilização.
2. A força do movimento foi-se alimentando de permanente construção de uma memória comum - e não esquecendo que Canas foi concelho entre 1196 e 1852 e entre 1867 e 1868 - assente na concepção e execução das formas de luta, na assunção de símbolos agregadores e politicamente transversais e na comemoração de datas marcantes do movimento. É por isso que o dia 2 de Agosto será provavelmente escolhido para feriado municipal, por ter sido nesse dia, em 1982, que a população se mobilizou contra a saída da estação dos correios da vila, tendo cortado a linha férrea e entrado em confronto com as forças policiais. É por isso também que essa data e esse acontecimento se festeja anualmente no largo 2 de Agosto, tendo sido aí também que a população explodiu de alegria e de festa para celebrar a elevação a concelho.
3. Sobretudo a partir de 1997, o movimento assumiu uma estrutura organizativa própria de democracia participativa com reuniões e sessões de esclarecimento regulares onde se confrontavam diferentes vozes e opiniões e se definiam estratégias de acção. E neste domínio é de salientar o papel das mulheres, uma presença activa mobilizada e mobilizadora ao longo de todo o processo de luta, com uma participação por vezes autónoma a significar a sua diferença no modo de serem iguais na reivindicação da cidadania no espaço público. Não surpreende por isso que as mulheres tenham decidido organizar autonomamente um dos dias de festas que se seguiram à elevação a concelho.
4. O movimento soube combinar a acção directa pacífica com a acção institucional. É sabido que a vitalidade da democracia se alimenta de ambos os tipos de acção e, por isso, na articulação entre elas, se sabiamente feita, reside o aprofundamento democrático. O movimento de Canas recorreu à acção directa em múltiplas ocasiões e foi perspicaz na trama da atracção dos meios de comunicação social. A algumas acções menos felizes seguiram-se outras verdadeiramente notáveis pela sua criatividade (como a do avião que fizeram aterrar na Assembleia da República). No plano da acção institucional souberam, em geral, manter a autonomia do movimento em relação aos partidos. E valha a verdade, os partidos corresponderam a essa vontade, suspendendo as suas actividades na localidade. Quaisquer que tenham sido os acidentes da votação final, é significativo que a elevação a concelho tenha sido aprovada com os votos do PSD, CDS, PCP, BE e PEV.
Num momento de pessimismo nacional é consolador ver uma comunidade a festejar o êxito da sua luta pela auto-estima, um êxito que se afirma numa vitória democrática traduzida numa votação da Assembleia da República.

 
 
pessoas
Boaventura de Sousa Santos