Centro de Estudos Sociais
sala de imprensa do CES
RSS Canal CES
twitter CES
facebook CES
youtube CES
07-06-2007        Visão
Na semana passada realizou-se no Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra um colóquio internacional sobre o diálogo entre o islão e o cristianismo. Foi uma reunião importante pelo que revelou sobre as possibilidades e os limites do diálogo intercultural e interreligioso. Tenho defendido que as culturas e as religiões só são monolíticas quando olhadas de fora. Internamente, a diversidade é enorme, sendo algumas versões mais abertas ao diálogo que outras. No colóquio, tanto os teólogos e estudiosos cristãos como os islâmicos salientaram algumas das condições que favorecem o diálogo: o cristianismo, o islão e o judaísmo têm uma origem comum, o monoteísmo de Abraão; na base de todas elas, estão grupos sociais oprimidos que procuraram a sua libertação através da religião; os textos sagrados de cada uma destas religiões são, eles mesmos, interculturais e neles se fundem influências semitas, gregas, árabes, persas, orientais; os textos não podem ser objecto de fixação dogmática porque são intrinsecamente ambíguos, já que foram escritos em contextos sociais e políticos específicos, diferentes dos nossos, e foram sujeitos a diferentes interpretações ao longo dos séculos; a história mostra que o pluralismo é inerente à experiência religiosa; o centralismo hierárquico do poder eclesiástico no cristianismo levou a certas soluções (e.g. o secularismo) que não podem transferir-se mecanicamente para outras religiões onde tal centralismo não exista; as relações de poder entre culturas e religiões, nomeadamente a violência colonial em que o catolicismo se envolveu, exigem que o diálogo vise a justiça histórica e a descolonização das religiões; é possível uma teologia islâmico-cristã da libertação.
No entanto, as possibilidades imensas do diálogo interreligioso coexistem com obstáculos ao diálogo que parecem hoje mais intransponíveis que nunca. No início do séc. XXI, as religiões voltaram a ser motores de extremismo ideológico e violento. Os textos sagrados são extirpados de toda a sua historicidade e voltam a ser verdades absolutas e eternas a que só têm acesso os chefes religiosos. A teologia política (a concepção da religião como agente político) volta a afirmar-se como parte de projectos geopolíticos que se apresentam como teopolíticos. Em vez da descolonização da religião, parece estar em curso a sua recolonização. Um exemplo grotesco disto mesmo são as declarações do Papa Bento XVI no Brasil sobre a suposta purificação dos índios por via da conversão (omitindo o extermínio que a acompanhou). Esta humilhação dos povos indígenas foi, de imediato, utilizada para estigmatizar o protagonismo dos seus movimentos sociais na política de alguns países. Na semana seguinte à conferência episcopal latino-americana alguns bispos começaram a alertar os fiéis contra o perigo do "revanchismo indígena". Tudo leva a crer que a confrontação entre conversão e conversação domine a política das religiões nas próximas décadas.

 
 
pessoas
Boaventura de Sousa Santos