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07-02-2015        Jornal de Notícias

Gregos, portugueses e muitos outros milhões de cidadãos europeus, ou que vivem na Europa, têm sido torturados com políticas de austeridade que agravam problemas de toda a ordem, que tornam a sociedade mais desigual e mais injusta. No momento em que o povo grego, com um governo que não abdica de representar os seus interesses e afirmar a sua dignidade, pondo em causa a falsidade dos alicerces da austeridade, os detentores do poder tudo fazem para impôr a ordem: prossiga a tortura.

É tempo de discutir política a sério. Como muita gente de quadrantes diversos vem alertando, na Europa estamos todos – toda a União Europeia (UE) e não só – perante uma complexa encruzilhada. Passos Coelho ao classificar o programa do governo grego de “conto de crianças” e ao dizer-nos que em Portugal temos de seguir em frente no caminho que vimos trilhando, convida-nos, criminosamente, a aceitar a continuação da tortura. Apesar da “troica fora do país”, o FMI já anunciou a receita em reserva.

O governo grego reclama, justamente, que a Europa seja governada politicamente ao serviço dos povos, com princípios éticos, com responsabilidade e solidariedade. Quer que o seu povo se liberte um pouco dos interesses financeiros e económicos ao serviço dos poderosos.

Como irá a UE responder às propostas do governo grego?

No imediato, puseram em ação a sua organização detentora dos instrumentos de tortura – o BCE – que, como qualquer torturador experimentado, é muito violento, mas capaz de confundir com momentos em que faz de bonzinho. Não sabemos o que vai sair daqui. Os governantes dos diversos países e os mandantes da UE dividem-se em três grupos: os servilistas como Passos Coelho, para quem as soluções serão as que os patrões ditarem; os dos sorrisos amarelos e sonsos à Hollande, sempre no exercício de agradar a Deus e ao Diabo, mas no fim entregando-se às “inevitabilidades”; os das caras fechadas, das ameaças puras e duras. O que mais preocupa no imediato são as ameaças: um documento “secreto” divulgado à Reuters pelo governo alemão exige ao governo grego que cumpra tudo o que os seus predecessores prometeram aos credores, levando o que resta da Grécia à ruína; uma decisão do BCE que concede apenas mais alguns dias de acesso dos bancos gregos ao financiamento do seu Banco Central (o BCE).

O que irá a UE decidir?

Não sabemos. Neste momento, a situação é de tal forma complexa e prenhe de contradições que talvez nem o governo alemão saiba bem o que vai fazer. O desfecho até pode vir a ser ditado não por decisões, mas pela falta delas. Basta, por exemplo, que o acesso ao crédito do Banco Central por parte dos bancos gregos seja bloqueado: é o que pode suceder se não forem tomadas decisões políticas a tempo. Aí o governo grego encontrar-se-á perante a escolhas trágicas que tem estado a querer evitar.

O corte do acesso ao BCE equivale de facto a uma expulsão da Grécia da zona euro, algo não previsto nos tratados. Ninguém sabe o que pode acontecer de seguida. Pode ser que a Alemanha, que se tem vindo a precaver para essa possibilidade, consiga absorver as ondas de choque de uma crise potencialmente fatal do euro. Mas, o mesmo não acontecerá em Portugal. Portugal, como a imprensa internacional não se tem cansado de lembrar, seria o próximo na linha de abate.

Portugal e os portugueses estão muito interessados na situação da Grécia. Uma solução negociada para esta emergência europeia, mesmo que fique algo distante da garantia de um rumo novo de rutura com as políticas de austeridade, é uma necessidade para os portugueses. O sucesso da Grécia é-nos muito vantajoso.

Infelizmente Portugal não tem neste momento um governo que o defenda, pois alinha com o mais descabelado fundamentalismo punitivo na UE, não para defender o país, mas para mostrar que não há alternativa à submissão. O governo que Portugal tem neste momento representa um enorme perigo. Ele é uma ameaça para os interesses mais imediatos e para o futuro dos portugueses. Uma ameaça para o interesse nacional, também identificado na independência e soberania de um povo e de um país, e no direito a uma vida comum em democracia e com dignidade.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
Grécia    BCE    UE