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05-02-2015        Público    [ pp. 46-47 ]

A Europa é um continente de migrações, de migrantes, de emigrantes e de imigrantes. Num momento em que se discutem restrições à mobilidade conquistada importa assegurar que não esquecemos quem somos. Não é de hoje que os europeus migram no interior da Europa, que recebem migrantes de outros continentes ou que se movimentam no mundo. Na verdade, sem migrações a Europa não era o que é hoje, o que foi no passado, nem o que será no futuro. Se, por exemplo, falarmos de arte, essa herança que recebemos e retransmitimos à próxima geração, devemos sublinhar que as migrações (também) criaram a Arte Europeia. Dos construtores de catedrais aos artistas do Renascimento, muitos foram os que circularam, criaram algumas das suas melhores obras em países que não os seus, deixaram um legado que nos aproxima. No século XX, a "Escola de Paris" foi um evento multicultural onde a Europa se reencontrou com a criatividade. Fizeram parte desse grupo o italiano Amadeo Modigliani (1884-1920), o búlgaro Jules Pascin (Julius Mordecai Pincas) (1885-1930), o russo Marc Chagall (1887-1985), o polaco-francês Moise Kisling (1891-1953) ou o lituano Chaim Soutine (1884-1943).

Em simultâneo, estavam em Paris criadores como Picasso, Amadeo de Souza Cardoso, Paul Klee, Marc Jacob, Chagall e tantos outros europeus. Podíamos falar de ciência, de filosofia, de música, de arquitetura ou de política. Quando a Europa acolheu no seu seio os melhores, quando permitiu a sua mobilidade, ficou melhor. Quando a II Guerra Mundial acabou, foram os europeus do Sul e de Leste que acorreram para reconstruir, com trolhas e à força de braços, os boulevards de Paris, reconstruindo um ideal de humanidade e de esperança. Foram os homens e mulheres de toda a Europa que se moveram e criaram a União Europeia naquilo que ela tem de melhor. Eu próprio fiz parte de um grupo de estudantes pioneiros que, através do programa Erasmus, se sentiu europeu quando se moveu para estudar na Europa, se sentiu em casa longe de casa. Com mobilidade, a Europa soube criar inovação, crescimento económico, desenvolvimento social. Hoje, na ânsia de controlar o amanhã, queremos esquecer o passado e, com isso, impedimos o futuro. A Europa não precisa de restrições à mobilidade. Pelo contrário. Precisa que encontremos uma estratégia para impedir a imobilidade e promover a circulação de pessoas e das suas capacidades. Não é a livre circulação no interior do espaço Schengen que precisa de ser restringida mas a relação do espaço Schengen com o resto do mundo que precisa de ser alterada permitindo que a mobilidade se realize. Muitos dos problemas que o controlo de fronteiras implica (migrações irregulares, intrusão de imigrantes clandestinos, tráfico de seres humanos) só se resolvem com políticas de abertura de fronteiras. Controlada, progressiva, pensada de acordo com as oportunidades e necessidades da Europa, mas uma abertura de fronteiras e não um fechamento dos mecanismos de controlo.

Há anos que a financiarização das políticas europeias nos impede de pensar nas questões essenciais como são as que nos ligam ao futuro. A Europa precisa de uma política europeia para as migrações porque as migrações são uma questão europeia. Promover a mobilidade no interior da União Europeia é uma necessidade e um investimento na nossa coesão social e económica. Pensar hoje as futuras migrações globais da (e para a) Europa é uma urgência, uma estratégia acertada e uma necessidade e, no entanto, ainda não está a ser feito. Com o passar dos dias nasce uma Europa de velhos. Velhos de idade e, sobretudo, velhos de ideias e de coragem. Promover a mobilidade e as migrações é o nosso passaporte para o futuro. Enquanto europeu, gostava que Portugal liderasse esta política.


 
 
pessoas
Pedro Góis



 
temas
migrações    fronteiras    UE