Existe na sociedade uma certa evidência de que o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) se está a processar a uma velocidade muito superior àquelas que se registaram em grandes avanços científicos e tecnológicos anteriores. Esta evidência é tomada como elemento justificativo de um avanço determinístico irreversível da IA sobre a organização e funcionamento da sociedade, independentemente de ser ou não regulada.
O desenvolvimento da IA está nas mãos de quatro ou cinco grandes plataformas privadas norte-americanas (dirigidas por loucos na análise social), pela China e mais alguma empresa russa. Em todos os casos há ligações ao setor militar. Continuarem a agir sem regulação é um desastre. Todavia, encontrar uma forma eficaz de fazer a regulação é uma interrogação do tamanho do Mundo. Isto ficou claro na última Assembleia Geral das Nações Unidas, entidade que, no século passado, contribuiu para o compromisso entre estados que sustentou o razoável controlo da manipulação e utilização da energia nuclear, problema assustador na altura.
Debaixo do primado do negócio e de toda a mentira que o possa potenciar, jamais se encontram condições para regular a IA. Não se regulam a robotização, a computorização e o digital, que têm conexão com a IA. Também não se regulam como deviam a proteção climática e ambiental, as mudanças demográficas, as novas cadeias de produção e de distribuição, os mecanismos de concentração e distribuição de riqueza.
Entre os que consideram a IA como o novo Deus criado pela mente humana, até aos que a consideram o oposto, ou seja, que ela é o novo Diabo, talvez ainda exista a hipótese de se fazer implodir muitas maldades e injustiças que já estão à vista, evitando cenários de grande destruição. E vir a integrar conquistas positivas do potencial de partida que se reconhece na IA.
Em regra, os discursos tecno apresentam os cenários futuros a partir do potencial de uma tecnologia, ignorando que entre esse potencial de partida e o que vai ser efetivamente aplicado existe uma distância enorme, resultante de custos de diversa ordem. No que se refere ao trabalho, ao emprego e às profissões, normalmente, só enunciam dimensões de destruição. Quase nunca falam do que vai surgir a ser transformado e criado de novo: muito menos olham para os impactos positivos a montante e jusante da aplicação de uma determinada tecnologia.
O desenvolvimento da IA já está a evidenciar a importância da filosofia, da sociologia, da linguística, da história, da antropologia e de muitos outros saberes que milhões de seres humanos terão de adquirir para, nas mudanças qualitativas que o emprego vai ter (talvez maiores que as quantitativas), serem capazes de trabalhar a favor de toda a sociedade as dimensões éticas, sociais, políticas, de proteção climática, ambiental e da natureza inerentes à existência humana; e do próprio planeta.
A IA desafia-nos a lutar por horários mais reduzidos, atividades mais criativas, salários mais justos.