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11-11-2018        Jornal de Notícias

A WebSummit – ou cimeira da rede, como se diria em português – foi predominantemente uma manifestação espetacular de deslumbramento acrítico com as novas tecnologias e com o empreendedorismo individual. No entanto, na edição deste ano, além das abordagens do costume surgiram intervenções que, a avaliar pelo que a imprensa noticiou, se demarcaram do fogo de artifício celebratório, para colocarem interessantes interrogações e alertas. A discussão sobre as tecnologias e os problemas suscitados pela sua adoção, feita em ritmo acelerado e extensão ilimitada, tem-se desenrolado num grande vazio de avaliação dos seus impactos potenciais e da possível regulação.

Sem dúvida, os acelerados avanços na inovação, no conhecimento e na adoção de novas tecnologias traz às sociedades do nosso tempo questões muito sensíveis, mas estes são apenas uma pequena parte dos grandes problemas que temos pela frente, o que reforça a necessidade de não nos sujeitarmos a determinismos tecnológicos. Tenhamos presente os perigos vindos do belicismo reinante que martiriza milhões e milhões de seres humanos, da degradação ambiental e ecológica, da “economia que mata”, da mercantilização do trabalho e da vida das pessoas, da pobreza e das desigualdades, das tensões entre democracia e autoritarismo e dos movimentos migratórios associados a justos anseios de imensos seres humanos. É neste quadro, e buscando soluções para cada um desses problemas, que temos de racionalmente construir interrogações e desenvolver estudos, definir limites e criar regulações sobre a utilização das tecnologias.   

Na WebSummit ouviram-se algumas vozes prudentes. Retivemos três delas.

A primeira, do secretário-geral da ONU, António Guterres, valeu sobretudo pelo alerta quanto à utilização da Inteligência Artificial e da Robótica para fins militares condensado numa frase: “Máquinas [inteligentes e autónomas] que têm o poder de tirar vidas humanas são politicamente inaceitáveis, moralmente condenáveis e devem ser banidas pela Lei Internacional”.

A segunda, de Tim Berners-Lee – apresentado como pai da Internet – destacou-se pelo apelo à consciência e deontologia profissional dos informáticos: “Se estão a criar uma enorme plataforma de software, ou uma pequena plataforma que se pode tornar enorme, precisam de pensar nas implicações. Aquela linha de código que escrevem tem implicações na liberdade de expressão”.

A terceira, de Chistopher Wylie – o programador que denunciou os crimes da empresa que ‘tomou de empréstimo’ dados pessoais na posse da Facebook, para usar na campanha presidencial de Donald Trump, não se deteve na questão da liberdade de expressão e disse: “Estamos a deixar-nos colonizar pelas empresas tecnológicas”. Afirmou também: “o futuro em que algoritmos estão no comando” não está assim tão longe; “no futuro vamos ter a casa conectada ao carro, ao telemóvel, ao escritório” e “os sistemas informáticos poderão ter o poder de decidir”. Chistopher Wylie deixou-nos um apelo para que nos interroguemos e procuremos soluções para duas questões fulcrais: o da ética profissional e o da regulação, desafiando-nos a agir enquanto é tempo. 

As tecnologias devem ser manuseadas com prudência, com rede. Da conceção à adoção têm de ser escrutinadas pela consciência dos profissionais, pela comunidade científica e pelo público. Têm de ser debatidas politicamente e reguladas pelos poderes públicos, por certo em várias escalas.

As tecnologias têm enormes consequências sociais que é preciso tentar antecipar e avaliar desde a fase de conceção, às de adoção e disseminação. Da mesma forma que se instituíram estudos de impacto ambiental e outros como condição prévia ao licenciamento de grandes projetos, ou a avaliação de risco de novas drogas, é preciso instituir estudos sobre o impacto social das tecnologias como condição prévia para a sua adoção.

As pessoas não podem ser peças de mecanismos que não controlam. Mas têm direito ao acesso aos mecanismos que podem facilitar a realização de objetivos individuais e coletivos de vida, têm direito a usufruírem das capacidades das máquinas para serem mais felizes.


 
 
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Manuel Carvalho da Silva



 
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