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25-10-2021        RFI [FR]

Um novo “golpe de Estado” no Sudão pode “levar a um retrocesso muito significativo de alguns avanços no processo de transição”, dois anos depois da queda do regime de três décadas de Omar Al Bashir. A investigadora Daniela Nascimento não exclui a possibilidade de um “novo fecho do país a dinâmicas de liberdade e transição democrática” com mais um regime militar repressivo.

Esta segunda-feira, as Forças Armadas do Sudão prenderam várias autoridades civis, incluindo o primeiro-ministro, e falaram em "golpe de Estado”. Nos últimos dois anos, o Sudão tem tido uma transição política precária, marcada por lutas de poder desde a queda de Omar Al Bashir em Abril de 2019. Desde Agosto, o país está sob o comando de uma administração cívico-militar, responsável por conduzir o país para uma transição democrática, sob controlo civil, para organizar no fim de 2023 as primeiras eleições livres em três décadas.

Daniela Nascimento, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, avisa que um novo “golpe de Estado” no Sudão abre a possibilidade de “um novo fecho do país a dinâmicas de liberdade e transição democrática”.

Eu acho que a consequência mais imediata é levar a um retrocesso muito significativo daqueles que foram – poucos, mas alguns – os avanços no processo de transição”, explica a também professora Auxiliar no Núcleo de Relações Internacionais da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Conhecendo a história do Sudão, que é marcada por muitos golpes de Estado - de natureza muito diversa, mas em que a dimensão militar esteve sempre muito presente - há uma consequência que não pode ser descurada que é a de se voltar a um regime militar no Sudão de natureza bastante mais repressiva, de maior controlo.

Inevitavelmente, isso poderá ter reflexos do ponto de vista do que era a abertura do espaço para as liberdades civis e política, obviamente aliadas a uma fragilidade económica muito estrutural. Inevitavelmente poderá haver aqui espaço para um retrocesso e um maior controlo dos militares daquilo que são as instituições”, considera a investigadora.

Esta segunda-feira, o general Abdelfatah al Burhan, presidente do Conselho Soberano, o mais alto órgão de poder no processo de transição do Sudão, anunciou a dissolução do Governo e o próprio conselho. Ele leu uma declaração na televisão estatal em que anunciou a instauração de um estado de emergência em todo o país.

As Forças Armadas prenderam várias autoridades civis, incluindo o primeiro-ministro, e falaram em "golpe de Estado”, acusando-no de não respeitar esse golpe. Numa declaração, publicada no Facebook pelo Ministério da Informação, o chefe de Governo apelou às pessoas para "se manifestarem" contra o "golpe de Estado". Pouco depois, o Ministério da Informação anunciou que as forças armadas estavam a disparar contra manifestantes em Cartum.




 
 
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