O Índice de Preços no Consumidor é ainda um indicador útil, mas está cada vez mais longe de captar a heterogeneidade dos padrões de consumo, as especificidades das despesas com a habitação e diversos impactos de manipulações de conceitos que se vão instalando pelas práticas da economia financeirizada. Enquanto salários, pensões e apoios sociais forem negociados, ou impostos unilateralmente, com base num único indicador que não capta essas diversidades da vida real, a avaliação do poder de compra continuará afastada das experiências concreta das famílias.
O relatório "O custo de vida em Portugal", divulgado pela Causa Pública no passado mês de junho (disponível no seu site), da autoria dos economistas Vicente Ferreira e Pedro Pratas, evidencia o desfasamento entre a leitura sugerida pelos indicadores oficiais, de que o poder de compra dos portugueses há muito recuperou do choque inflacionista e a persistência do elevado custo de vida como principal preocupação das famílias, desde logo, das mais jovens e das de menores rendimentos.
Dizem os autores que o índice que usamos para medir a inflação é uma média construída a partir do cabaz de consumo de uma família típica (que não existe) e que essa média esconde realidades muito diferentes. Por exemplo, para os 20% mais pobres, a subida de preços foi impulsionada por bens essenciais, como a alimentação, a energia e a habitação, enquanto para os mais ricos houve um peso relativo maior de outras componentes, como restaurantes, férias e lazer, gastos que se podem adiar ou substituir. A isto soma-se o facto de os produtos mais baratos de cada categoria, ou seja, aqueles que as famílias com menos rendimentos já escolhiam, terem sido os que mais encareceram nos últimos anos.
Os autores demonstram que a habitação é hoje o principal encargo de boa parte da população. Contudo, as rendas têm um peso reduzido no cabaz oficial usado para medir a inflação (cerca de 4%), quando para uma família arrendatária representam mais de um quarto da despesa total. Entretanto, as prestações do crédito à habitação são simplesmente omitidas do índice. O resultado é que o custo de vida sentido por quem paga uma renda ao senhorio, ou uma prestação ao banco, aumentou mais do que o indicador da inflação sugere. As dificuldades acrescem para a esmagadora maioria dos jovens e para todos os que necessitam de entrar nestes mercados da habitação.
O aumento do preço das casas, que se fez em flecha nos últimos anos, não melhorou a vida da esmagadora maioria dos portugueses, não tornou mais fácil comprar casa, não deu vida mais folgada a quem tem a sua casa.
Senhor primeiro-ministro, com as suas políticas de habitação incongruentes, com o pacote laboral do século XIX, com a Segurança Social ao serviço da alta finança, com o definhamento paulatino do SNS e da Escola Pública, poderia enriquecer uma minoria, mas jamais propiciaria o desenvolvimento da sociedade portuguesa.