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22-02-2014        Jornal de Notícias

Três anos de "ajustamento", de agravamento de impostos, de redução de salários e pensões, de brutais sacrifícios impostos à esmagadora maioria da população e a situação dos portugueses e do país é bem pior do que a que tínhamos à partida. O "êxito", o "milagre económico", o "equilíbrio das contas", afinal não são verdade ou, em um ou outro aspeto, não passam de realidades conjunturais com pés de barro.

A dívida não para de crescer e temos cada vez menos capacidade para a pagar; não se fizeram mudanças estruturais da economia; não há novos investimentos; temos mais exportações, mas sem qualquer solidez e porque os portugueses perderam poder de compra; aumentam a pobreza, as desigualdades, as doenças, o compadrio e a corrupção. A justiça esfuma-se e é chocante ouvir as conclusões de processos que envolvem os grandes interesses, como o caso dos submarinos.

Os nossos governantes, com Passos e Portas à cabeça, repetem a aldrabice de que já batemos no fundo e iniciamos um período novo de recuperação e progresso. Eles, governantes da subserviência aos interesses dos nossos credores e agiotas e da traição política, levaram-nos ao fundo e tudo estão fazendo para que lá fiquemos: um país com pobreza estrutural e profundamente desigual; despovoado e envelhecido; sem participação cívica; com o Estado social destruído; sem coesão territorial e entre gerações; com uma sociedade amorfa e resignada. Um país com uma democracia esvaziada e com a sua soberania e independência hipotecadas.

O Governo, para além de estar a trabalhar para facilitar ainda mais os despedimentos, já anuncia um corte permanente nos salários da Função Pública para este ano e um plano para forçar mais desemprego nas autarquias.

A troika descobriu que o crescimento económico do final do ano passado, que o Governo não para de festejar como se tivesse vindo para ficar, se ficou a dever sobretudo ao crescimento da procura interna. O Tribunal Constitucional impediu alguns dos cortes programados e as pessoas passaram a consumir um pouco mais? Para a troika isso é inadmissível. Para a troika, a haver crescimento tem de ser pelas exportações à custa de mais cortes nos salários. Isto é, as coisas só melhoram se piorarem para quem vive do salário. Querem um país transformado numa enorme oficina terceiro--mundista que trabalha sem descanso para pagar dívidas que crescem ininterruptamente.

Hoje é claro que os cenários apresentados pela troika nos relatórios das diversas avaliações são cenários virtuais, com metas de crescimento e outras absolutamente inatingíveis, apenas para sustentar a tese de que "vamos no bom caminho". É um escândalo constatar que, nas mais de 1100 páginas do conjunto dos relatórios feitos até agora, esses mercenários nem uma vez tenham escrito as palavras pobreza ou desigualdades.

A União Europeia (UE) aí está também a receitar cortes nos salários entre 2,4 e os 5%, e mais 10 anos de sacrifícios para os portugueses.

O Governo, a troika e a UE estão perfeitamente sintonizados nas mentiras, nas manipulações e nos objetivos. O coro é o mesmo: a desafinação parece residir agora apenas no número de anos de desastre que cada um quer fixar desde já.

Afinal, a nova normalidade de um pós-troika não será mais do que décadas sem fim de "ajustamento". A saída da troika nem será limpa, nem libertadora. Haja vergonha!

A estranha UE que está a nascer da Europa que prometeu convergência na prosperidade tem periferias em que o ar se vai tornando irrespirável em resultado da loucura dos governantes nacionais e europeus que temos. Por enquanto, existem ainda algumas escapatórias que os desempregados, por exemplo, utilizam para procurar trabalho nos países do Centro, mas não tardará que construam barreiras de arame farpado como as que existem numa outra zona de comércio livre, entre os EUA e o México.

Esta "nova" Europa, de onde se diz terem de vir as soluções, está transformada no grande problema. Isso mesmo é o que será preciso discutir e enfrentar nas próximas eleições para o Parlamento Europeu, sob pena do nosso enlouquecimento coletivo.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
troika    UE    função pública    governo