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10-12-2013        Jornal de Letras, Artes e Ideias

“Por isso, quero uma Igreja pobre para os pobres”, escreve o Papa Francisco no parágrafo 198 da sua primeira Exortação Apostólica intitulada “Evangelii Gaudium” (ou, traduzido, “A alegria do Evangelho”). Este documento não é um entre outros: constitui o programa da Igreja para os próximos anos, como o Papa também diz, logo no primeiro parágrafo. Aliás, mais adiante, no nº 25, Francisco afirma que este texto deve ser entendido “num sentido programático e [com] consequências importantes.” Ora, do que este documento trata é de reformas – palavra, aliás, utilizada frequentemente no texto: reformas dentro da Igreja (que o Papa considera “inadiáveis” - nº 27) e mudanças na sociedade. Muito haveria a escrever sobre as reformas internas propostas por Francisco (espero poder fazê-lo noutra ocasião).

Concentrar-me-ei, contudo, aqui, apenas na crítica profunda que o Papa faz às sociedades capitalistas, de consumo, e ao próprio capitalismo. E começarei por dizer que me parece importante destacar que o Papa não perspetiva as suas críticas à sociedade capitalista e de consumo no quadro de um pensamento que não põe em causa o próximo sistema. Por isso, será, no mínimo, redutor e “silenciador” da novidade do documento dizer que Francisco se limita a repetir o que a Igreja, na sua Doutrina Social, diz desde Leão XIII, ou que é “maravilhoso” termos tido uma sequência de Papas que vêm sempre dizendo o mesmo.

Perdoar-me-ão o facto de este texto ser tão abundante em citações do documento . Faço-o deliberadamente, como um pequeno contributo para divulgar a radicalidade de um pensamento que será, provavelmente, incómodo para alguns (senão muitos), incluindo dentro da Igreja Católica.

É que do que Francisco fala é da necessidade de mudar o sistema estruturalmente. Aliás, a referência a esta necessidade aparece 5 vezes no documento, desde logo, numa sequência de “nãos”: “não à economia da exclusão” (nº 53), que mata, porque serve a lógica do mais forte, na qual os excluídos “sobram”; “não à nova idolatria do dinheiro” (nº 55), que nega a primazia do ser humano sobre o consumo (contexto, aliás, no qual o Papa refere a dívida e os seus interesses como impossibilitando os países de viabilizar as suas economias e destituindo os cidadãos do poder aquisitivo real); “não ao dinheiro que governa em lugar de servir” (nº 57), isto é a uma lógica que se esquece de que “não partilhar com os pobres os próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida”, porque “os bens que possuímos não são nossos, são deles”; “não à iniquidade que gera violência” (nº 59), quer dizer, não à violência gerada por um sistema social injusto.

Face a tudo isto, o Papa afirma: “a necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza não pode esperar” (nº 202). E não pode esperar, segundo Francisco, porque “enquanto não se resolverem radicalmente os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da iniquidade, não se resolverão os problemas do mundo e, em definitivo, nenhum problema.” (idem). É que, na sua perspetiva, a “raiz dos males sociais” está nesta “iniquidade” e, nas suas palavras, “já não podemos confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado” (nº 204). Em suma: “a economia já não pode recorrer a remédios que são um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado laboral e criando, assim, novos excluídos” (idem). Uma reforma estrutural da economia deverá passar, segundo o Papa, pelo reconhecimento da dignidade humana e do bem comum como os fundamentos para a política económica (cf. nº 203). E estas não devem ser meras palavras para embelezar programas políticos. Por isso, Francisco apela aos políticos para que perspetivem a economia como “a arte de alcançar uma adequada administração da casa comum que é o mundo inteiro” (nº 206). O Papa está ciente das implicações locais de uma economia global, mais, afirma que “cada vez se torna mais difícil encontrar soluções locais para as enormes contradições globais” (idem). Por isso, é preciso pensar em soluções e alterações globais, já que “todo o ato económico de envergadura realizado numa parte do planeta repercute no outro” (idem).

Ora, segundo Francisco, o crescimento em equidade, portanto, respeitador da dignidade e do bem comum, exige “decisões, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribuição do acesso, uma criação de fontes de trabalho, uma promoção integral dos pobres que supere o mero assistencialismo” (nº 204).

Este último aspeto constitui uma outra pedrada no charco – não basta a “caridade à la carte”, feita de “uma soma de pequenos gestos pessoais dirigidos a alguns indivíduos necessitados”, para “tranquilizar a consciência pessoal” (nº 180). Está em causa uma solidariedade que transforma, porque baseada no reconhecimento da “função social da propriedade” e do “destino universal dos bens como realidades anteriores à propriedade privada”. Porque “a posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e acrescentá-los de maneira que sirvam melhor o bem comum”. A “solidariedade deve viver-se como a decisão de devolver ao pobre o que lhe corresponde. Estas convicções e hábitos de solidariedade, quando se fazem carne, abrem caminho a outras transformações estruturais e tornam-nas possíveis” (nº 189).

E este é o ponto em que o Papa Francisco compromete todos os crentes. Quero eu dizer: o aspeto “não facultativo”. Mais concretamente ainda: Francisco não faz uma crítica às sociedades atuais como se os católicos estivessem todos do lado “desejável” e as iniquidades “deste mundo “ se devessem a uma “vontade de injustiça” assumida apenas pelos não-crentes. Como ele próprio diz: “Não nos façamos de distraídos. Há muito de cumplicidade” (nº 211), cumplicidade face à escravidão, ao trabalho clandestino, à prostituição, às crianças exploradas na mendicidade, ao trabalho clandestino, ao crime “mafioso e aberrante” (idem), às mulheres que sofrem situações de exclusão, de maus-tratos e violência, às crianças por nascer, ao conjunto da criação (nº 212). Mesmo se o Papa reitera a doutrina da Igreja relativamente ao aborto (referindo o “reconhecimento do valor inviolável de qualquer vida humana” – nº 213) e se diz que a Igreja não mudará neste ponto, acrescenta a mesma referência à cumplicidade, quando diz: “mas também é verdade que temos feito pouco para acompanhar adequadamente as mulheres que se encontram em situações muito duras, nas quais o aborte se lhes apresenta como uma rápida solução para as suas profundas angústias, particularmente quando a vida que cresce nelas surgiu como produto de uma violação ou num contexto de extrema pobreza.” (nº 214) E pergunta: “Quem pode deixar de compreender essas situações de tanta dor?” (idem)

Este documento programático, por muito que a dureza da sua linguagem custe, inclusivamente a muitos católicos, afirma claramente que o lugar dos crentes ao lado dos pobres não é facultativo – é o sinal de uma fé autêntica: “Uma fé autêntica – que nunca é cómoda e individualista – implica sempre um profundo desejo de mudar o mundo” (nº 183), isto é, “a Igreja não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça” (idem). Fazer ouvidos surdos ao clamor dos pobres é “ficar fora da vontade do Pai e do seu projeto” (nº 187). Solidariedade significa “criar uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns” (nº 188). O “sonho” programático do Papa Francisco não se resume a assegurar comida e teto a todos. O seu sonho inclui “educação, acesso aos cuidados de saúde e especialmente ao trabalho, porque no trabalho livre, criativo, participativo e solidário, o ser humano exprime e acrescenta dignidade à sua vida. O salário justo permite o acesso adequado aos outros bens, que estão destinados ao uso comum” (nº 192).

O Papa não tem vontade que algum católico se sinta dispensado deste “sonho programático”: “ninguém deverá dizer que se mantém longe dos pobres porque as suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outros assuntos” (nº 201). O Papa sabe que “esta é uma desculpa frequente em ambientes académicos, empresariais ou profissionais e inclusivamente eclesiais” (idem). Por isso, reitera frequentemente ao longo do documento que a opção pelos pobres e os frágeis não é uma entre outras para a Igreja – é a opção: a opção teológica, mais do que cultural, sociológica, política ou filosófica (cf. nº 198). Quer isto dizer que não depende de circunstâncias deste último tipo, mas sim da identidade profunda da Igreja, que ele quer pobre, para os pobres, como se dizia no início. Não bastam “programas de promoção e assistência” (nº 199). É preciso optar pela justiça.

Não creio que estas afirmações estejam em linha com as críticas demolidoras de Papas anteriores às teologias da libertação. Parece-me mesmo possível ler nas entrelinhas deste documento uma crítica à crítica e perseguição às teologias da libertação. De contrário, como interpretar estas palavras do Papa Francisco, referindo-se à opção da Igreja pelos pobres, inscrita em textos bíblicos?: “É uma mensagem tão clara, tão direta, tão simples e eloquente, que nenhuma hermenêutica eclesial tem direito de relativizar. A reflexão da igreja sobre estes textos não deve obscurecer ou debilitar o seu sentido exortativo, mas sim ajudar a assumi-los com coragem e fervor. Para quê complicar o que é tão simples? Os aparatos conceptuais servem para favorecer o contacto com a realidade que pretendem explicar, não para nos afastar dela. (…) Para quê obscurecer o que é tão claro? Não nos preocupemos só em não cair em erros doutrinais, mas também em ser fiéis a este caminho luminoso de vida e de sabedoria. Porque os defensores da ortodoxia são por vezes acusados de passividade, de indulgência ou de cumplicidade culpável relativamente a situações de injustiça intoleráveis ou aos regimes políticos que as mantêm” (nº 194).

Rush Limbaugh, uma das figuras de proa do “Tea Party” já veio acusar o Papa de ser marxista, por criticar radicalmente o capitalismo. Segundo o Huffington Post, corre neste momento uma petição entre os católicos americanos exigindo que Rush Limbaugh peça desculpa. A petição intitula-se: “Tell Rush Limbaugh: We Support Pope Francis”. Até agora, tenho visto pouca reação dos católicos portugueses ao documento. Curiosamente, algumas das que tenho visto, criticam as leituras ao mesmo que realçam a contundência no Papa no apelo às mudanças estruturais que aqui referi. Curioso, no mínimo…


 
 
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