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18-02-2011        Expresso Online

A notícia das agressões sexuais cometidas sobre Lara Logan no Egipto é excruciante. O facto de seguir Lara Logan há anos ajuda a pessoalizar, inflamando, a raiva sentida pelo que tantas vezes acontece às mulheres por esse mundo fora. O meu único desejo é que Lara Logan resista, que volte à sua profissão e à vida pública. E que a indignação pela violência patriarcal assim expressa alhures, em termos inomináveis, nos ajude a denunciar, também, a trivial perfídia que perpassa nas nossas vizinhanças.

Quando às repercussões, não teríamos de esperar muito pelas tiradas racistas em relação ao povo egípicio, pelas tiradas cínicas que com inominável crueldade culpam a vítima, ou pelas tiradas autoritário-conservadoras que logo se apressam a uma nostalgia pela ordem do tempo de Mubarack.

Aqueles que, olhando para as estatísticas de violações, lembram que a violência sobre as mulheres é prática comum no Egipto e que, ao mesmo tempo, se mostram saudosos da mão de ferro de Mubarack, esquecem-se de um pormenor: foi no regime de Mubarack que essas estatísticas se forjaram, foi no seu regime político que se formou a geração que agora reclama a democracia. Não que a bondade de um regime político democrático tenha, per se, o poder de mudar as concepções culturais, tornando-as mais equalitárias e menos opressivas, mas convém juntar um memorando singelo às elucubrações que por aí querem condenar o próprio levantamento popular: as revoluções transportam sempre algo daquilo a que renegam.