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22-06-2018        Público

Durante o jantar de gala do World News Media Congress, no Estoril, João Palmeiro, Presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, protagonizou um momento constrangedor. Em palco, ao apresentar as mulheres que faziam parte da sua equipa de trabalho, Palmeiro descreveu-as como os seus anjos, a quem abraçou e beijou sem consentimento explícito, tudo isto enquanto colocava em cada uma delas uma capa branca (à falta de asas para as fazer voar, como explicou) e tecia comentários acerca da maior ou menor desenvoltura face à proximidade física conforme a sua origem geográfica. A intervenção de Palmeiro incluiu a declaração “Agora, em nome de todos vocês, eu vou beijar Christin”, reportando-se a Christin Herger, da World Association of Newspapers. Não obstante a reação visivelmente incomodada de Herger, Palmeiro incita: “Dá-me um beijinho, por favor”, repetindo assim a frase que as meninas mais ouvem das pessoas adultas enquanto crescem. O desconforto de Herger acabou por ser duplamente menorizado, primeiro quando lhe é dito que é envergonhada e logo depois quando, ainda em palco, Palmeiro se aproximou de outra mulher dizendo-lhe: “Mulher portuguesa, por isso não é tão envergonhada, por isso um grande abraço e um grande beijo”.

Todo o incidente, filmado e divulgado, desencadeou uma onda de indignação veiculada sobretudo na imprensa internacional e nas redes sociais, tendo originado uma Carta Aberta de repúdio por parte de profissionais dos media.

O episódio assume maior relevância por duas razões principais.

A primeira razão decorre do facto de as declarações terem tido lugar durante um evento internacional que, entre outros objetivos, visava reconhecer e visibilizar as graves assimetrias de género no meio jornalístico. As declarações prestadas por Palmeiro quando confrontado posteriormente por um jornalista presente constituem um poderoso exemplo do que está em causa quando falamos em sexismo. Numa primeira reação, Palmeiro falha em reconhecer a violência de género subjacente ao seu comportamento em palco, escudando-se na diversidade cultural e asseverando tratar-se de um comportamento “absolutamente ok e normal” (sic) de acordo com os padrões culturais portugueses. A perplexidade que leva à interpelação é, bem se vê, coisa menor (quiçá de meninas), própria de quem não está habituado a este jeito tão português de se ser machista. Afinal, nestas coisas do assédio e de outras formas de violência de género, a culpa é historicamente da vítima, como demonstram estudos sociojurídicos na área da violência de género.

A segunda razão resulta da ausência de resposta atempada em situações de agressão sexista. Julie Posetti, investigadora sénior do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo da Universidade de Oxford, descreveu o incidente como o momento #metoo das Conferências em Jornalismo. Mas o mal-estar que as declarações de Palmeiro provocou não levou a que a sua embaraçosa prestação fosse de imediato interrompida por outras pessoas na sala. As reações fizeram-se sentir depois, e porventura timidamente. Essa dificuldade em reagir de forma imediata a agressões sexistas explica-se sociologicamente por recurso a um dos mais poderosos regimes de pensamento da modernidade: o patriarcado.

Não tenhamos dúvidas: as campanhas sobre as más mães que fumam versus princesas que não fumam são produzidas no mesmo caldo patriarcal que espera que as mulheres no palco do Centro de Congressos do Estoril se comportem como meninas, obedientes, ruborizadas e sempre gratas pela atenção do condescendente patriarca cuidador que, apesar de tudo, as homenageia com a mesma mão que as humilha.

É o patriarcado que obriga as meninas a sorrir para as fotos ou a dar beijinhos contra-vontade, o mesmo patriarcado que infantiliza as mulheres eternizando-as discursivamente como meninas, que devem moderar a assertividade para não serem arrogantes, falar pouco e baixo, e ocupar pouco espaço físico (e político) em lugares dominados por fenómenos de mansplaining e manspreading (palavra do ano em 2015). É o patriarcado que nos ensinou a comer e calar, em sentido simbólico e muito literal. É o patriarcado que nos impôs o guião do recato, da submissão não consentida, do universo segundo o qual as mulheres decentes não têm ouvidos e os homens têm necessidades. Por isso demorámos tanto tempo em devolver a autodeterminação reprodutiva às mulheres e em reconhecer a violação no casamento ou o assédio de rua como crime. Mas fizemo-lo. E é também por isso que incidentes como este não são admissíveis.

Numa célebre coleção de ensaios e poemas, Audre Lorde escreveu um dia “o teu silêncio não te irá proteger”. Mas sabemos que as vítimas precisam frequentemente que outras pessoas quebrem o silêncio por – e com – elas. Foi justamente por isso que a violência doméstica se tornou crime público há dezoito anos. No beijo não consentido a Christin estamos todas nós. E por isso, mais do que repisar o grave incidente do Congresso Internacional dos Media, importa recuperar o enfoque para o fazer recair nisto que designamos por violência de género de modo a encontrarmos formas de resposta imediata à desresponsabilização individual e coletiva face a agressões sexistas.

Numa coisa João Palmeiro estava certo: nem todas as pessoas presentes no evento partilham da sua cultura. Mas a pergunta colocada de volta pelo jornalista indignado – “este comportamento é aceitável é Portugal?” – erra a mira: não é a cultura portuguesa que, permissiva, normaliza o sexismo; é a cultura patriarcal que, insidiosa, contamina a experiência.


 
 
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