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13-10-2009        Jornal de Notícias
 Fechado o ciclo das legislativas, logo no dia a seguir se inicia a campanha para as eleições autárquicas. Que me recorde, nunca tal concentração de apelo ao voto por parte do sistema político português se havia registado. Em ano de eleições, espaçavam-se normal e sabiamente os actos eleitorais para não confundir as diferenças de que ambos se revestem (as autárquicas efectuavam-se, regularmente, em Dezembro).

Este ano, decidiu-se por uma convergência de datas, utilizando vários argumentos, entre os quais o da poupança derivada da duplicação das eleições. Discutiu-se mesmo se não se deveriam efectuar no mesmo dia. Felizmente, esta ideia não colheu. Mas os efeitos perversos de uma colagem tão chegada estão à vista de todos.

As campanhas mudaram. Já não há comícios, antes "arruadas" onde se distribuem pequenos panfletos com fotografias e um punhado de propostas. Mas foi aqui, facto bem aproveitado pelos meios de comunicação, que tais campanhas como que se nacionalizaram. O que sobressaía aos olhos do cidadão eleitor era, na maior parte dos casos, o discurso e a figura do líder nacional. A ressaca legislativa e os seus estilhaços impediram, deste modo, que muitas mensagens locais passassem para o universo da intenção de voto das populações. Mais ainda, a pressão dos centros partidários quis impor candidatos que não obtiveram a adesão das estruturas locais, pagando tais candidatos por isso um preço relevante.

A realidade ostenta no entanto várias facetas. Só 29 Presidentes não se recandidataram. 279 voltaram a fazê-lo. A localização, a ancoragem das candidaturas em redes sócio-políticas preexistentes foi outro dos factores em jogo. Salvo determinadas excepções (com motivos analisáveis caso a caso), estas eleições e as campanhas que a elas conduziram continuaram a desenrolar-se sob o signo da "vitória dos Presidentes" e da manutenção do personalismo na vida portuguesa em geral e na política em particular.

Na década de 90, as listas de cidadãos independentes foram, por muitos, consideradas como a fórmula mágica para a remodelação do modelo então existente. Bom, os independentes continuam a ser apenas 7 (todos com uma independência originada em zangas e quezílias partidárias). O que nos leva a perguntar pela nossa sociedade civil (tão frágil e dependente do Estado), pela organização transparente dos interesses locais, pela participação e pela acção colectiva, todos eles garantes de uma efectiva independência.

Quanto aos candidatos a braços com problemas com a justiça, só um (inesperadamente, aliás) não foi reeleito. Quanto aos outros dois, um manteve a maioria absoluta e o outro reforçou a votação, mantendo a confiança do eleitor. Isto significa que valores como a cidadania e o respeito pelas normas que a todos nos regem são subalternos relativamente à porosidade notabilizadora e à imagem de capacidade de acção.

Por fim, falemos do futuro. De todos os 308 eleitos, 191 fizeram-no pela última vez dada a nova legislação sobre a limitação dos mandatos. Será isso sinónimo de renovação futura do Poder Local? Infelizmente, muitos dos futuros novos candidatos estão já a ser preparados para eventuais cargos pelos variados círculos íntimos que alimentam o sistema político local. Alguns, poderão estar a preparar-se para a assunção de novas tarefas que este sistema deve assumir, para se poder renovar. Outros. porém, estou em crer, não conseguirão saltar a barreira dos velhos vícios que tendem a inquinar a política local.

 
 
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