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30-03-2018        Público

Em 1981, Ney Matogrosso cantava Eu sou homem com H, e com H eu sou muito homem, dando conta das expectativas culturais dominantes em torno das masculinidades. Tudo começa de facto com uma atribuição de género anunciada por profissionais de saúde visando aplacar uma ansiedade social: é menino ou menina? Em regra, não participamos do momento em que nos é conferido esse rótulo primeiro que sempre nos acompanha, mesmo quando o contestamos ou questionamos. A esse atributo que nos é alheio cola-se um conjunto de normas tácitas ou explícitas, socialmente construídas e responsáveis por papéis distintos. E é assim que depois, mesmo sem querer, nos confrontamos com um apertado sistema binário que dificilmente se compagina com uma realidade mais rica que as restritivas prescrições.

Casos como o que envolveu livros de exercícios diferenciados para meninas e meninos, confundindo diversidade com binarismo, constituem momentos importantes de reflexão sobre desigualdade. Mais recentemente, o Regulamento do Hospital de Cascais revelou a extensão do problema que, extravasando a desigualdade de género, é exponenciado por um entendimento restritivo do corpo. O conteúdo do regulamento remete-nos para o campo dos costumes, meticulosamente desenhados como brandos ao longo da história, para permitir a perpetuação de atropelos à liberdade. Esses “brandos costumes” partiam da premissa de que às mulheres competia o dever do decoro, a observação do pudor e a reserva da decência. As competências agora exigidas a quem trabalha no Hospital de Cascais não se compreendem se não à luz de uma análise de género, a partir da qual se torna evidente o empenho em disciplinar um corpo que se pretende silencioso e obediente, na esteira de um legado que, em 1933, estabelecia o princípio constitucional da igualdade ao mesmo tempo que ressalvava as “diferenças resultantes da sua [mulher] natureza e do bem da família”. Daí que grande parte do regulamento tenha como objeto as trabalhadoras de quem se espera o uso de vestuário e maquilhagem “adequados à fisionomia de cada pessoa”. Essa expetativa de adequação - sexista, classista e, no limite, deficientizadora - mais não é do que o cumprimento de uma exigência de padronização, que depois se estende aos trabalhadores de quem se espera o uso de meias lisas, de preferência azuis escuras, e desodorizantes sem cheiro. Há que conter o corpo para que este não transborde, para usar a poderosa metáfora oferecida por Margrit Shildrik. Todo um programa.

Um dos aspetos interessantes neste episódio é o contraste que oferece, em contexto hospitalar, entre a imposição de um corpo neutro (ordinário) e a esperança num corpo heroico (extraordinário) que logra salvar vidas quando já não parecia possível. Com efeito, a prestação de cuidados em situações-limite tem permitido a criação de heróis contemporâneos, designados invariavelmente no masculino, com exemplos que incluem os bombeiros como heróis sem capa ou o polícia francês que trocou de lugar com uma refém. É por isso que, a pretexto da controvérsia em torno do regulamento hospitalar, temos hoje a oportunidade de repensar algumas das contradições culturais que incorporamos. Até que ponto o modo como nos apresentamos constitui marca de distinção ou de estigma? Como incentivar o espírito crítico e a excecionalidade num contexto que idealiza a padronização? Como são as figuras heroicas que nos atrevemos a designar por nacionais em 2018? Quantas dessas figuras escapam ao imaginário do homem cisgénero, heterossexual, casado e progenitor?

Em Junho de 2017, o enfermeiro Carlos Pinto jantava num restaurante com o seu companheiro e uma amiga quando arriscou a sua vida para salvar uma jovem esfaqueada durante um atentado em Londres. Conhecida a sua história, Carlos tornou-se o herói português dos relatos dessa noite. E foi a partir desse momento de atribuição de um estatuto de heroicidade a um cidadão nacional que o jantar interrompido pelo atentado passa a ser descrito como um jantar de amigos. O argumento de que a orientação sexual não é relevante para o feito heroico cai por terra quando se constata a intenção de invisibilizá-la. Estivesse Carlos a jantar com a sua mulher e já a sua orientação sexual estaria sempre presente. Estes e outros temas serão objeto do Encontro Heróis e Vilões, a decorrer em Coimbra a 18 de abril e que reúne um conjunto de reflexões interdisciplinares a partir dos Estudos da Memória e dos Estudos de Género. 

Em suma, refletir acerca do caráter socialmente construído do género e do sexo não equivale a negar o corpo enquanto matéria que denuncia os absurdos da desigualdade. A mais expressiva negação da materialidade do corpo resulta, justamente, da tentativa inglória de aniquilar a diversidade no modo como os corpos se autodefinem ou se expressam. Somos matéria diversa, mutante, não-binária, em constante transformação pelo tempo e, em momentos felizes, por escolha. Por fim, as pessoas a quem é conferido o atributo de heroicidade não encaixam na expetativa de presença discreta e em tons nude que estabelece o regulamento. Pelo contrário, os heróis são celebrados por feitos excecionais, fora da normalidade, sobre-humanos. Em matéria de heroicidade, estamos de facto no campo da extraordinária anormalidade. E não consta que a capa das super-heroínas e dos super-heróis seja prime pela discrição nude e lisa.


 
 
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Ana Cristina Santos



 
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