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04-02-2018        Jornal de Notícias

Certas práticas que se procuram impor no mundo do trabalho, e as fundamentações teóricas que as acompanham, parecem anunciar uma nova divisão do tempo conducente a uma relação metabólica Homem/ Sociedade/ Natureza disfuncional. Somos incitados a por de lado a ideia de que a noite é para descansar, a auto convencermo-nos de que podemos ser plenamente ativos a qualquer das 24 horas do dia e em qualquer dia da semana. Assim se constrói o permanente caos entre tempos de trabalho, de descanso, de formação, de lazer, de consumo, de exercício de direitos de cidadania. É a total desordem entre os conceitos de trabalho e de não trabalho visando a desvalorização dos dois. Direi que está em gestação uma nova semana com estes sete dias: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado-feira, domingo-feira. Talvez a seguir se encontrem novas palavras para substituir sábado e domingo.

Dizem-nos que nada há a fazer perante os determinismos da financeirização da economia e da inovação tecnológica. Daí nasce a competição internacional com todas as atividades e tempos da nossa vida convertidos em mercadorias, bem como a necessidade "de o sol nunca se pôr" no império do mercado em contínua expansão. Ao mesmo tempo terá sido descoberto que afinal o Homem não é um ser social, logo o que há a incentivar é o individualismo e a total responsabilização de cada indivíduo pelos seus êxitos e, principalmente, pelos fracassos.
Paremos para refletir e coloquemos algumas interrogações. I) Será que caminhamos para uma sociedade em que cada ser humano, em particular os que trabalham, terão a totalidade dos seus tempos de vida regulados individualmente segundo as necessidades do mercado? ii) Será que a interação esporádica e digital substituirá os tempos de partilha e comunhão com que se constroem a família, os grupos de amigos, os clubes e associações? iii) Será que a necessidade “imperiosa” de haver grandes espaços comerciais e de outros serviços e consumos abertos numa lógica 24/7 torna desejável tambémo funcionamento contínuo de creches, infantários e escolas, onde os pais possam “depositar” os filhos?

Espremendo até ao tutano a tese de que o pleno emprego é um objetivo obsoleto, de que estamos à porta do desaparecimento do próprio conceito trabalho, substituído por um difuso conceito atividades, surgem pretensas utopias tecnológicas a pregar que no futuro uns seres humanos trabalharão, outros não, mas todos terão acesso a rendimentos que lhes hão de permitir escolhas livres. Mas será que vai ser mesmo assim? As promessas de “lazer” como resultado tecnológico esquecem duas coisas fundamentais: primeira, as verdadeiras causas do atual desemprego de massas é fruto de uma crise financeira ainda não ultrapassada e não de alterações tecnológicas; segunda, a tecnologia pode acelerar processos de controlo e disciplina do trabalho desumanizados e a desregulação horária.

Quando observamos o que se passa hoje no mundo do trabalho vemos a efetivação do trabalho a exigir que abdiquemos dos direitos e deveres que lhe deram dignidade: o direito e o dever de usufruir de um salário justo e de um horário de trabalho definido e controlável, de conciliar vida familiar com trabalho, de contribuir para sistemas públicos, solidários e universais de saúde, de educação, de proteção no desemprego, na doença e na reforma. Nos contratos ou acordos coletivos “modernos”, que grande parte das organizações patronais vão apresentando, são estas as propostas que surgem para os “privilegiados” que queiram trabalhar e manifestem total disponibilidade nos sete dias-feira da nova semana.

A tecnologia contribuirá para o desenvolvimento das sociedades e deve ser um meio de libertação coletiva, poupando-nos das tarefas mais duras e abrindo horizontes à nossa emancipação, mas isso não depende tanto da sua suposta “essência”, mas sim dos usos que lhe dermos através de processos coletivos, deliberativos e democráticos. O melhor meio de condicionar positivamente a trajetória do desenvolvimento tecnológico e de prevenir eventuais distopias futuras é assegurando direitos no trabalho, regulando os seus tempos e as condições da sua prestação. 


 
 
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Manuel Carvalho da Silva



 
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