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26-04-2006        Diário Económico
Também a nível nacional as questões de base científica e tecnológica devem crescentemente fazer parte da agenda externa.

Uma das principais marcas de mudança nos processos de governação globais tem sido a crescente centralidade das questões científicas e tecnológicas na sua agenda. É disso triste lembrança actual a passagem de 20 anos sobre o acidente nuclear de Chernobyl, que não poupou as fronteiras políticas de então e que continua a requerer importante acompanhamento internacional. A actualidade da crise internacional em torno do Irão é outro exemplo muito actual.

Mas o que melhor caracteriza esta mudança é a crescente transversalidade das questões científicas e tecnológicas ao nível das relações internacionais, muito para além das questões clássicas do prestígio internacional conferido pela ciência. Não se trata apenas das implicações da globalização dos riscos que Ulrich Beck descreve na sua visão da ‘Sociedade do Risco’, tão evidentes em questões como a propagação da BSE, também conhecida como ‘doença das vacas loucas’, ou o aquecimento global. Estão também em causa os limites à globalização dos ‘bens’ centrais ao desenvolvimento da ‘Sociedade do Conhecimento’, que se pretende assumir.

Questões centrais na sociedade globalizada actual, como a imigração, induzem uma rápida leitura em torno dos processos de mudança social que origina e dos mecanismos da sua regulação, através da imposição de limites a estes fluxos. Mas gera também uma diferente leitura quando a C&T é trazida para o seu seio, identificada como imigração qualificada, ou traduzida como ‘fuga de cérebros’, escapando assim à associação mais directa a este tema. Do mesmo modo, o impacto público do fecho de uma fábrica tradicional, em virtude dos processos globais de deslocalização de empresas, e que lança no desemprego 500 trabalhadores pouco qualificados é por vezes rapidamente atenuada pelo anúncio do lançamento de investimento directo estrangeiro, através da abertura de um centro de I&D com 50 engenheiros. A dimensão científica e tecnológica impele diferentes leituras, e necessariamente diferentes atenções.

Quando muito se fala sobre ‘diplomacia económica’, esta forte presença da C&T a nível global sugere a necessidade da emergência em paralelo de uma ‘diplomacia científica’. A forte presença de questões de base científica, tecnológica ou de saúde foi já identificada em relatório do National Research Council dos Estados Unidos ("The Pervasive Role of Science, Technology, and Health in Foreing Policy"), indicando a sua importância em 13 de 16 objectivos definidos no plano estratégico da sua política externa. Relatórios posteriores têm também salientado o importante papel do contributo científico para as instituições globais de governação ou a nível da ajuda internacional.

Também a nível nacional as questões de base científica e tecnológica devem crescentemente fazer parte da agenda externa. Esta diplomacia científica não deve ser entendida apenas através do papel clássico do ‘conselheiro científico’, de apoio aos processos de cooperação científica e tecnológica internacional. Ainda que um importante contributo aos processos de internacionalização da ciência, este modelo é actualmente pouco prioritário como o exemplificam as mudanças em curso no corpo de conselheiros e adidos técnicos no estrangeiro do MNE.

Com um número muito reduzido de diplomatas do MNE com formação de base em C&T, a política externa tem beneficiado da contribuição central do pessoal técnico dos organismos sectoriais. Mas é também importante criar maiores oportunidades de formação para além dos tradicionais temas de carácter mais político, apresentando as novas formas de ‘intromissão’ da ciência na diplomacia (o que não é evidente na formação dos novos diplomatas), facilitando a interacção cada vez mais necessária com cientistas. Em concursos para ingresso na carreira diplomática esta poderia receber maior atenção, como agora acontece com a inclusão nos temas do concurso actual da estratégia de Lisboa, onde a questão da inovação e do conhecimento está necessariamente explícita.

Subjacente ao desenvolvimento da diplomacia científica está a capacidade das instituições de governação global reflectirem do melhor modo o conhecimento existente e as preocupações dos seus cidadãos.