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23-11-2017        Público

Mais de 500 dias depois da maioria do eleitorado britânico ter votado a favor da saída do Reino Unido da União Europeia, o país continua em suspenso sobre o seu futuro. As negociações entre Bruxelas e Londres têm avançado muito pouco nos últimos meses. A União Europeia, numa até agora surpreendente posição de unidade entre os seus Estados-membros, tem-se mantido irredutível relativamente à agenda que traçou para as negociações, sendo bastante assertiva quanto à necessidade em haver progresso suficiente relativamente ao estatuto dos cidadãos europeus no Reino Unido (e vice-versa), ao estatuto da fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte e ao valor da contribuição financeira do Reino Unido antes de se poder falar no futuro da relação pós-“Brexit”.

Do lado britânico, o governo de Theresa May encontra-se profundamente dividido relativamente ao que pretende da relação com os seus vizinhos europeus. O resultado das eleições de Junho passado retirou margem de manobra — assim como a maioria absoluta — à primeira-ministra e contribuiu para reforçar as divisões dentro do Partido Conservador. Quem, por exemplo, ouvir o ministro das Finanças Philip Hammond, ou o ministro do Comércio Internacional Liam Fox falar sobre o impacto do “Brexit” no futuro do país perguntar-se-á se estamos a falar de dois ministros de um mesmo governo ou de políticos de partidos opostos, tal é a divergência de opinião entre estes.

David Davis, o ministro nomeado para liderar as negociações com Bruxelas e uma das vozes a favor do “Brexit” durante a campanha para o referendo, tem até ao momento revelado pouca capacidade para liderar o processo, mostrando-se constantemente surpreendido e por vezes zangado com a posição irredutível, mas coerente, de Michel Barnier, o representante da Comissão Europeia para as negociações, primeiro, relativamente ao estatuto dos cidadãos europeus, depois relativamente ao pacote financeiro e, mais recentemente, em relação à questão da fronteira com a República da Irlanda. No fundo, David Davis é um bom exemplo da falta de conhecimento que os políticos britânicos sempre tiveram relativamente à União Europeia e à forma de fazer política no seu seio.

Nas últimas semanas, a estratégia de Londres tem passado pela realização de operações de charme a países vistos como mais próximos de Londres, numa tentativa de quebrar o consenso europeu vigente. Para já, pelo menos, tal abordagem parece estar a ter o efeito contrário e o Reino Unido corre o sério risco de não receber qualquer concessão relativamente ao futuro estatuto das relações com Bruxelas na cimeira do próximo mês.

Perante um governo britânico internamente fraco, dividido e sem uma clara noção sobre o futuro do país fora da União Europeia (e não é claro que o principal partido da oposição a tenha), Bruxelas terá de aceitar que é do seu interesse garantir uma saída suave para o Reino Unido. Para além da questão das relações comerciais entre os dois lados, a importância estratégica e financeira que o Reino Unido tem para a Europa pode, num cenário de desestabilização social e política, abalar o que ainda é uma frágil recuperação da crise económica e financeira que abalou a União Europeia nos últimos anos.

Não há, contudo, uma solução fácil à vista. Adotar uma posição mais flexível nas negociações — começando já a negociar o futuro antes de resolver o passado e o presente e abrindo a possibilidade do Reino Unido participar no mercado único sem as obrigações dos restantes participantes — pode ser não só ser contraproducente em termos de coesão interna (mostrando que, afinal, sair da UE até pode ser positivo), como também insuficiente. Por um lado, as vozes mais radicais no Partido Conservador não parecem querer qualquer tipo de acordo; por outro, não é para já claro se o atual governo irá sobreviver para implementar o mesmo.

No entanto, manter uma posição de inflexibilidade pode levar à rutura das negociações e a uma saída atribulada do Reino Unido da União Europeia. Isso teria consequências significativas para a Europa no curto prazo em múltiplas áreas — dos transportes à cooperação em matéria de segurança interna — e certamente geraria uma crise política de enormes proporções tanto em Londres como na Irlanda, onde o reerguer da fronteira física entre os dois lados podia facilmente fazer renascer o conflito entre católicos e protestantes. Isto para não falar da Escócia, onde a probabilidade de um referendo para a independência do país aumentaria significativamente, reforçando ainda mais a crise política no país.

Em suma, mais de um ano após o referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia, o que fica claro é que um país, desde sempre conhecido pela natureza conservadora do seu sistema politico, decidiu coletivamente dar um salto para o desconhecido. Há boas possibilidades de essa queda vir a ser bastante dolorosa. É do interesse europeu garantir que tal não aconteça. No fundo, o problema britânico é também um problema europeu


 
 
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André Barrinha



 
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