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13-11-2017        Jornal de Notícias

Nesta semana de Web Summit em Lisboa voltamos a ter os meios de Comunicação Social cheios de notícias e de debates sobre o fim do trabalho, pressupostamente causado pela inovação tecnológica. Não é nova esta narrativa que apresenta o desemprego de massas e as desigualdades no país, na Europa e no Mundo como uma inevitabilidade decorrente das novas tecnologias, que vão da utilização do digital à robótica e à inteligência artificial. Um estranho futuro é anunciado: nele, o engenho humano e a sua capacidade criativa surgem para estruturar um Mundo desumanizado pela sujeição à máquina e pela evaporação do social, onde o trabalho é inútil e os trabalhadores descartáveis.

A Web Summit é um espaço de negócios e ela mesma um negócio com interesse imediato para o país mas, em muitos aspetos, com enfoques distantes dos desafios reais que marcam a sociedade portuguesa. Nela circulam ideias, socializa-se uma microcomunidade e expõe-se uma pequena parte da inovação associada aos avanços tecnológicos e científicos. Nesta Web Summit houve, pontualmente, mensagens de cientistas e políticos a alertarem para a irracionalidade do trágico determinismo tecnológico hoje propagandeado, a afirmarem a necessidade de se utilizar os avanços tecnológicos para dar combate à pobreza e às desigualdades, para resolver bloqueios ambientais, para proteger direitos das pessoas e lhes propiciar novas capacidades de agir.

Estas sugestões permitem desencadear reflexões sobre como regular e aplicar as capacidades tecnológicas - fazendo-se uma utilização mais justa da riqueza - para criar emprego útil, valorizável e motivador, para identificar novas profissões com formações e competências inovadoras. Mas a agenda neoliberal impõe-se no terreno. Os grandes espaços de formação de opinião estão focados na promoção da mercadorização do trabalho e na subjugação da política, do social e do cultural ao poder da economia financeirizada.

Os poderes que impõem esta agenda precisam, imperiosamente, de construir uma visão apocalíptica do futuro do trabalho, de eliminar o próprio conceito de trabalho substituindo-o por um conceito vago de atividades associadas, por exemplo, à panaceia do empreendedorismo individual. Não querem discutir as mudanças a introduzir no mundo do trabalho em decorrência dos avanços tecnológicos e científicos, mas sim qualificar como anacrónicas a condição de trabalhador, o direito do trabalho, os instrumentos de regulação e regulamentação e as instituições de mediação que deram dignidade ao trabalho. Tudo substituído pela mentira de que no futuro já não haverá subordinações, de que bastará o querer, a determinação e empenho de cada indivíduo para garantir livre poder de escolha.

A conversa do fim do trabalho não é nova e foi repetida, e muitas vezes infirmada, ao longo dos dois últimos séculos. Novo é este discurso num contexto internacional de estagnação económica, de desemprego e de desigualdades gritantes (mais uma vez expostas na publicação dos "Paradise Papers" e na obscena riqueza escondida em offshores). Com a desculpa da tecnologia, tenta-se criar um quadro onde a ação política perde razão de ser, já que o futuro da sociedade está aparentemente definido por uma determinada configuração tecnológica.

Nesta conceção, enquanto se discutem futuros apocalípticos esvaziados de intervenção política, não se debate um fenómeno aparentemente contracorrente. Em Portugal, o emprego não está a ser destruído, mas sim a ser criado, tendo o país já recuperado da perda de emprego ocorrida durante o período da intervenção da troika que, como sabemos, não resultou das tecnologias, mas sim de políticas económicas e de emprego injustas e desajustadas. No entanto, o emprego criado é sobretudo precário e mal pago (de todos os contratos de trabalho criados em 2017, 40% pagam o salário mínimo nacional). Este cenário não se modificará sem alterações cirúrgicas das leis laborais e práticas de valorização do trabalho.

Não fiquemos paralisados pelo apocalipse do trabalho. Com empenho coletivo é tempo de se criar instrumentos necessários para que o emprego seja digno, fator da coesão social e instrumento de desenvolvimento da sociedade.


 
 
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Manuel Carvalho da Silva



 
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