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11-10-2005        Jornal de Notícias
Qual foi afinal a pedra de toque que marcou a diferença entre as eleições autárquicas deste ano e as anteriores? Em 2001, perante as perdas do PS, falou-se na teoria do pântano e numa eventual nacionalização do voto local, esquecendo que os ciclos políticos se tornavam, então, mais curtos e que, como em quaisquer eleições locais, a imagem e a pessoa do candidato, mais do que os partidos e as clivagens ideológicas, constituíam a chave para compreender resultados. Em 2005, pensou-se no contexto igualmente pantanoso em que decorriam e nas possíveis nacionalizações de sinal contrário (penalizações tanto ao PSD como ao PS) a que poderiam conduzir. Novamente se esqueceu a personalização da vida política local, a qual continua a crescer, bem como os registos de identidade (inserção na identidade local) e de acção municipal que os candidatos devem saber gerir.
A novidade foi então constituída pelo facto de existirem quatro (entre quarenta e duas) candidaturas independentes a contas com a justiça, caracterizadas pelo facto de todas elas, antes fortemente ancoradas em partidos, se materializarem em pessoas com prévias e longas carreiras políticas. O país benzeu-se e houve quem exclamasse "aqui d’el rei";. No entanto, qualquer olhar mais bem exercitado sobre o país real não podia deixar de contemplar a forte hipótese de tais candidaturas lograrem vitória. Basta lembra Daniel Campelo, há oito anos, a contas com o partido (ganhou como independente na altura, ganhou novamente agora pelo CDS). Foi o que aconteceu, conforme o previsto, salvo com uma. Ferreira Torres perdeu em Amarante (27%). Mas Valentim Loureiro (58%), Fátima Felgueiras (47%) e Isaltino Morais (34%) vingaram.
Falou-se em corrupção, em populismo, em imoralidade e num rol de outras tantas coisas. É verdade. Mas esqueceu-se, porém, de tentar perceber, explicar a razão do voto sancionador dos eleitores a estes três candidatos. Falou-se num país atrasado e distante, quase que não nosso, esquecendo que duas destas vitórias se situaram bem no seio das Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto.
O populismo destas candidaturas ostentou, porém, grandes diferenças. Senão vejamos.
O de Ferreira Torres era o mais bacoco, ostentador e ultrapassado. Mesmo assim, se tivesse por aí corrido, teria repetido vitória em Marco de Canaveses. Apesar de tudo, o seu registo de identidade na localidade mantinha-se algo sustentável. Cometeu um erro mortal: apesar do espalhafato de promessas, mudou de território, concorreu como páraquedista por Amarante. Onde não tinha registos, quer de identidade, quer de acção municipal, nem confiança, nem, ainda, cumplicidades. Perdeu.
O de Fátima Felgueiras estava muito bem trabalhado. O registo identitário e a cumplicidade/proximidade física da eleita com os eleitores eram armas terríveis num contexto espacial de "longe de tudo";. Os resultados da "salvadora"; local eram, assim, previsíveis desde a sua chegada do Brasil. Ganhou.
Valentim Loureiro era também um "pai"; para os Gondomarenses, num Concelho cheio de exclusão e desemprego sem fim, onde não se percebe, às portas do Porto, onde começa o campo e acaba a cidade. Como pai local, atento e velante, atendia a todos, mostrando procurar resolver, senão o "problema";, os problemas de alguns... Ganhou.
Quanto a Isaltino Morais, a falar-se de populismo, este é de cariz bem mais modernizante. Considerada uma das Câmaras mais bem organizadas do país, o Concelho de Oeiras tem uma capacidade de atracção humana, tecnológica, empresarial e cultural absolutamente invejável. É, pois, natural que este registo da sua acção municipal tenha esfrangalhado o seu partido e erguido um muro de confiança e legitimidade eleitoral à sua volta. Ganhou.
A política tem, pois, um lado subjectivo que não é tido em conta por muitos. Mas que se torne claro que, na minha tarefa de ajudar a explicar o fenómeno, eu gostaria que esta política fosse bem diferente...

 
 
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Fernando Ruivo