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10-05-2017        Público

A crítica norte-americana aos excedentes da balança comercial germânica catapultou o tema para os jornais alemães. Não é que a questão seja nova. Já há anos que a Comissão Europeia se queixa do problema. Em 2016, os excedentes atingiram um novo recorde de 297 mil milhões de dólares, mais do que a China e muito acima da média recomendada pela União Europeia. Também o FMI já expressou a sua preocupação várias vezes. Porém, nos media germânicos dominava a perspectiva nacional e mercantilista. "Excedentes de exportação" ou "campeão das exportações" eram termos empregados com orgulho nacional como se de uma modalidade desportiva se tratasse. Olhava-se para eles como símbolo da competitividade da marca "made in Germany", resultado das reformas laborais no início do milénio. Aqui e ali, vozes keynesianas criticavam o seu efeito nocivo para o equilíbrio da economia europeia, mundial — e até mesmo para a própria Alemanha. Argumentavam que muitos alemães não estavam a beneficiar deste "segundo milagre económico", de não haver investimentos e de o país se está a tornar num país de baixos rendimentos, onde a desigualdade social cresce continuamente. Alertavam também para o perigo de a crise financeira se repetir visto a Alemanha não apenas exportar produtos mas também capital e crédito para o estrangeiro poder financiar os seus próprios produtos, acumulando assim dívidas e dependências nessas regiões. Porém, essas vozes ficavam-se por publicações com reduzido impacto mediático.

A eleição de Trump veio alterar a situação. Os jornalistas começaram a mencionar a perspetiva internacional, mesmo que de sobrolho carregado. Já antes da tomada de posse, Trump colocou o país em alvoroço ao afirmar numa entrevista ao tablóide Bild que as exportações alemãs eram um problema e ao ameaçar a indústria automóvel com sobretaxas aduaneiras. Pouco depois da tomada de posse de Trump, Peter Navarro, o seu conselheiro comercial, usou palavras duras para descrever a economia alemã, geralmente reservadas à China. Numa entrevista ao Financial Times, acusou a Alemanha de prática comercial injusta e de estar a usar o Euro como uma versão desvalorizada do Deutsche Mark para fomentar as suas exportações, explorando assim os seus parceiros europeus e os EUA. Tal crítica chocou Berlim, habituado que estava a apresentar-se como modelo virtuoso e a dar lições de economia e moral durante a crise do Euro. Merkel retorquiu que as vantagens do Euro fraco para a economia alemã resultam da política do BCE, cuja independência ela sempre respeitou. O Ministério da Economia recusou o pedido de cooperação bilateral de Navarro para a solução do problema, argumentando que a política económica europeia é da competência da UE.

Porém, o nervosismo permaneceu. O governo alemão sabe que os seus argumentos são só parcialmente válidos. É verdade que os juros baixos do BCE favorecem as exportações sem a interferência de Berlim, mas é igualmente verdade que eles se devem à ausência de soluções políticas — também da Alemanha — aos problemas europeus. É verdade que a Alemanha não manipula o valor nominal do Euro, mas condiciona o seu valor real através de outras variáveis económicas como a contenção salarial. Berlim sabe que pôde ignorar as preocupações da Comissão porque a ela lhe faltam aliados poderosos entre os Estados-membros. Pôde igualmente deixar passar as críticas do FMI porque não está dependente dos seus créditos. No entanto, está consciente que não poderá ter a mesma atitude com os EUA. O “Dieselgate” provou-o recentemente: apesar de o governo alemão e a Comissão Europeia estarem há muito a par das manipulações da Volkswagen, só os EUA tiveram o poder de confrontar a poderosa indústria automóvel alemã com a fraude.

Restava, pois, a esperança que Trump mudasse de opinião, o que face à volatilidade dos seus ditos não era infundado. Tanto mais que a influência de Navarro se foi esvanecendo a favor de personalidades de Wall Street com ideias multilateralistas como Gary Cohen. Tal explica que Schäuble tenha viajado recentemente a Washington para o encontro do FMI e Banco Mundial com uma estratégia de apaziguamento na mala. Tentou convencer novamente que a competitividade alemã se deve apenas às reformas laborais e à qualidade dos produtos alemães e aconselhou os outros países a seguir o exemplo. No entanto, as suas expetativas foram logradas. Steven Mnuchin não só se recusou a prescindir da ansiada cláusula anti-proteccionista no communiqué do encontro como também exigiu que os países com excedentes contribuíssem para regras justas e o equilíbrio do comércio internacional. Pediu que o FMI fizesse uso do seu mandato no sentido de supervisão e de apresentação de propostas concretas do problema. Dado que os EUA detêm a maioria de voto no FMI, Lagarde dificilmente poderá ignorar a posição norte-americana. Além disso, Emmanuel Macron, o novo Presidente francês apoiado por Berlim, também já criticou o balanço comercial do país vizinho em público.

Ver-se-á, pois, como a Alemanha reagirá a este desafio de forma a evitar uma situação insustentável para a Europa e uma guerra comercial com os EUA, encabeçada pela Comissão Europeia. Quanto a impulsos internos, o governo alemão teria de mudar a sua retórica nacionalista e convencer primeiro a população que o país não é apenas um dos maiores contribuintes da Europa, mas que a sua economia é a que mais lucra da UE. Porém, tal mudança é pouco provável antes das eleições em Setembro. Especialmente tendo em conta que o novo partido de extrema-direita, Alternative für Deutschland, tem vindo a pressionar os cristãos-democratas a empurrar o partido mais para a direita e a dar ênfase à retórica nacionalista. Sendo o nacionalismo ideológico um tabu devido à história alemã, o nacionalismo económico continua a ser um dos trunfos mais importantes — também para compensar pelo menos simbolicamente os alemães que nada lucram com o superavit. Impulsos da esquerda alemã surpreenderiam. O partido social-democrata perdeu credibilidade com as reformas neoliberais de Gerhard Schröder e o baixo perfil político que lhe restou esbateu-se na grande coligação com Merkel. O coup de nomear Martin Schulz para candidato a chanceler do SPD foi recebido com grande entusiasmo, mas os resultados das eleições em Saarland em fins de Março refrearam os ânimos. Os Verdes lutam pela sobrevivência política e o partido Die Linke ainda é visto como um vestígio da antiga RDA. Perante este torpor biedermeier, a visibilidade que a crítica externa aos excedentes assumiu na Alemanha desde Janeiro pode ser considerada um modesto "progresso". Restam, pois, as pressões externas, principalmente do outro lado do Atlântico.


 
 
pessoas
Clara Ervedosa



 
temas
BCE    EUA    FMI    UE    balança comercial germânica