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31-03-2017        Público

Decididamente não da melhor forma, Donald Trump tem contribuído para alargar o debate público sobre o racismo, ao mesmo tempo que se enchem caixas de correio com notificações de notícias e mensagens de alerta de colegas que nos perguntam: ‘Já viste a última dele?’ Assim saem de cena os despejos no Bairro de Santa Filomena e no 6 de Maio pela Câmara da Amadora, onde se foram abatendo paredes em cima de histórias de vida tão precárias e no pico do Inverno, contrariando as normas das Nações Unidas. A violência racista na esquadra de Alfragide e em bairros da periferia, e um número desproporcional de jovens negros mortos pela polícia em Portugal sem uma única condenação. E a petição pela concessão da nacionalidade aos filhos de imigrantes que nascem em território português e que nunca conheceram outro país. Nada disto parece gerar os mesmos anticorpos que o racismo do outro lado do Atlântico.

Diagnosticado à distância como narcisista maligno, Donald Trump parece refastelar-se em toda esta atenção. Pergunto-me porque é que tem tanta, sobretudo quando o interesse público pelo seu racismo não parece ser semelhante ao suscitado aquando da morte do adolescente Trayvon Martin na Florida, às mãos de um vigilante de bairro (se nos lembramos hoje dele é devido às grandes manifestações contra a absolvição de George Zimmerman, na origem do movimento Black Lives Matter). A popularidade do entretanto todo-poderoso Presidente foi sendo analisada à exaustão nos media; porém, o relevo que este adquiriu nos debates sobre racismo foi uma questão menos explorada. Entre as várias razões para tal proeminência está a forma como nos debates em torno de Trump se evoca um entendimento do racismo que nos é muito familiar: designadamente, o racismo como um fenómeno excepcional e marginal nas sociedades democráticas e, portanto, manifesto em personalidades autoritárias e desviantes ou em grupos políticos extremistas (daí a proliferação de metáforas da doença para o abordar; por exemplo, como um cancro no corpo político da nação). O preconceito é a formulação favorita desta enunciação, que invoca uma certa história da Europa — a do Holocausto — e obscurece a historicidade dos diversos projectos coloniais que lhe antecederam e consagraram raça como categoria-chave na concessão de direitos sociais e políticos.

Esta concepção não é nova: nas décadas de 1950 e 1960, as várias intervenções da UNESCO em torno da legitimidade científica do conceito de raça marcaram os debates políticos e académicos até hoje, tornando dominante uma noção de racismo como ignorância e os preconceitos que residem “na mente das pessoas”. Privilegiando estruturas cognitivas ao invés de estruturas de poder, é esta concepção que permite tal fascínio por esta figura autoritária dos nossos tempos e que se assemelha a outra figura emblemática do racismo de outros tempos. Note-se que este entendimento do racismo foi sempre contestado: na primeira metade do século XX, várias foram as intervenções que nos mostram que o centro da atenção dos intelectuais negros — como W.E.B. Du Bois e Carter G. Woodson — eram as estruturas de poder que geravam uma distribuição desigual de recursos (materiais e simbólicos), associada a preconceitos e hierarquias raciais. No entanto, esta outra concepção de racismo, que aponta para a sua dimensão institucional e a questão do poder, nunca conseguiu a mesma aceitação — porque mexe, precisamente, no que está instituído. Neste sentido, centrar-nos mais na figura do “racista” do que na continuidade das políticas que sustentam o racismo deixa de poder constituir um acaso ou um acto ingénuo: ao fazê-lo, obliteram-se outras formas de entender e confrontar este processo e, sobretudo, legitimam-se as estruturas mais amplas de distribuição de poder e privilégio. Enquanto focamos a nossa atenção e nos indignamos com as medidas tomadas por Trump — muitas vezes até mais pela forma desbocada de as comunicar do que pelo seu conteúdo —, estamos a deixar passar, ao nosso lado, discursos e práticas políticas que têm a mesma natureza excludente e racista, sem que tenham direito a capa de jornal, notificações de alerta ou a tantas entradas em blogues.

Falemos de muros e de fronteiras, de imigração e refugiados, e também da escravatura. O muro de Beja: o chamado “muro da vergonha” no Bairro das Pedreiras que separava a população cigana da restante. Erguido em 2006, denunciado publicamente em 2010, objecto da condenação do Estado português pelo Comité Europeu dos Direitos Sociais em 2013, e mesmo assim teve de ser derrubado pela própria comunidade cigana em 2015, porque as boas intenções não derrubam pedras. As fronteiras: o Mediterrâneo, esse fosso tão policiado pela Frontex em que todos os anos naufragam milhares de vidas e torna desnecessário erguer mais muros. A construção dos “bons” e “maus imigrantes” pelo centrão partidário, para justificar políticas restritivas da imigração e se desresponsabilizar pela discriminação racial. Os refugiados, umas escassas centenas até 2015, num país que se auto-declara campeão da tolerância. E que os portugueses “preferem” aos imigrantes, como indicava a European Social Survey publicada em 2016. Os escravos comparados a imigrantes. Em incalculáveis momentos solenes, discursos políticos, monumentos e exposições, panfletos e manuais, para mostrar como Portugal colonial foi pioneiro da globalização e interculturalidade. E o Portugal dos Pequenitos, quando vamos falar do Portugal dos Pequenitos?


 
 
pessoas
Marta Araújo



 
temas
xenofobia    imigração    refugiados    racismo    donald trump