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28-11-2016        Jornal de Notícias

Perante a eleição de Trump – sustentada numa plataforma com múltiplas expressões fascistas –, muitas das respostas de políticos e comentadores de serviço europeus e nacionais, parecem sobretudo preocupados com o alegado "fechamento" dos Estados Unidos da América (EUA) no seu relacionamento com países e instituições supranacionais. Questões como o teor racista das suas primeiras nomeações, ou como a extraordinária redução de impostos prevista para os mais ricos que, por certo, agravará as desigualdades e provocará novas disfuncionalidades nas economias norte-americana e global, são negligenciadas face a um suposto risco de abrandamento ou de reversão da globalização neoliberal que temos vivido.

O conceito globalização é profundamente polissémico e policêntrico e está no senso comum como uma “falsa ideia clara”. Em nome de inevitabilidades da globalização, têm-se cometido dos maiores atentados à dignidade humana. O conceito está capturado enquanto liberalização financeira e dos movimentos de capitais, associados à “livre” circulação de mercadorias.

Trump fez campanha contra os acordos de livre comércio assinados nas últimas décadas pelos EUA, como a NAFTA ou, mais recentemente, o Tratado de Livre Comércio da Orla do Pacífico (TTP), cuja denuncia unilateral já anunciou. Esta foi uma estratégia eleitoral eficaz junto dos eleitores da chamada "cintura da ferrugem" ou de classes médias americanas. Contudo, a crítica ao livre comércio esteve longe de ser um exclusivo do candidato Trump. À esquerda, o senador Bernie Sanders conseguiu estruturar uma campanha muito bem sucedida onde os temas do livre comércio, do futuro do trabalho e da justiça social estiveram presentes, mas distinguindo-se claramente do discurso reacionário e anti-sindical de Trump.

A lição a tirar da campanha e dos resultados eleitorais nos EUA, não pode afunilar-se na abordagem da contraditória retórica crítica de Trump sobre o livre-cambismo. Uma observação séria sobre a globalização não permite, de forma alguma, que esta seja traduzida num jogo de soma positiva, onde todos ganham. As práticas concretas e os resultados das políticas que têm sido aplicadas provam-no.

Não se pode negar os progressos económicos e sociais alcançados por muitos países e povos nas últimas décadas. Esses progressos são resultado de diversos fatores, cuja analise não cabe neste espaço. Sem dúvida foram criados milhões e milhões de novos postos de trabalho em várias latitudes, mas muitos deles carregados de expressões de exploração que, a não serem travadas, podem colocar em causa os extraordinários avanços de desenvolvimento humano do último seculo. É por isso que hoje se impõe uma profunda discussão sobre os novos contornos e implicações da Divisão Internacional do Trabalho.

A globalização, em muitas das suas expressões, tem significado: i) aprofundamento de desigualdades e implementação de formas ignóbeis de apropriação e concentração da riqueza, que matam a economia ou a fazem a matar, como diz o Papa Francisco; ii) intensificação do saque de matérias-primas; iii) implementação do uso irracional da terra na produção de alimentos e de outras matérias-primas; iv) criação de gravíssimos problemas ambientais e ecológicos; v) subjugação de culturas em importantes dimensões; vi) aumento das tensões, guerras e movimentos de refugiados de dimensão nunca vista; viii) criação de bloqueios às condições necessárias para os povos e os países construírem projetos próprios e solidários de desenvolvimento, nomeadamente tentando impor o poder dos grandes empórios multinacionais. Alguns acordos de comércio livre, já assinados ou em discussão, trazem consigo agravamento de muitos destes problemas.

Deseja-se um debate mais objetivo! Nenhuma hesitação em identificar o que é retrógrado por mais que surja enfeitado de moderno. Combate sem tréguas pela dignidade no trabalho e pela democracia, denúncia sem tibiezas de políticas fascistas, combate ao absolutismo da competitividade, às injustiças gritantes, às desigualdades e à pobreza, em particular à pobreza infantil.


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
temas
globalização    EUA    trump