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28-06-2015        Jornal de Notícias

A União Europeia (UE), devidamente assessorada por essa máquina trituradora da independência de países e da dignidade dos povos que é o FMI, está transformada num monstro capaz de danos irreparáveis. A UE está a aprisionar grande parte dos povos que a constituem, tortura os mais débeis e começa até a assustar não só o comum dos cidadãos, mas também as elites empenhadas na busca de soluções que evitem o desastre.

A loucura está a instalar-se perigosa e rapidamente na Europa. O fundamentalismo também aqui impera. Um novo colonialismo, que fora da Europa tem sido mortífero para milhões de seres humanos e destruído países, surge a afirmar-se em versão específica para o espaço europeu.

O patamar de condições de vida e de vivência democrática alcançado pelos europeus constitui ainda, sem dúvida, vantagem significativa quando comparamos a nossa situação com aquela que vivem outros, submetidos a outras loucuras. Mas é essa diferença que torna lamentável e altamente perigoso o “espetáculo”, o exemplo, que a União Europeia está a dar.

O povo e o governo grego têm sido massacrados. A persistência na tortura – que é de tal ordem que até um dos torturadores (Juncker) se afirma cansado – visa, desde logo, a submissão e a humilhação absolutas, mas também alastrar o seu efeito a todo o espaço da UE. Nós, portugueses, ficaremos tão desarmados quanto mais fundo for o processo de humilhação e retaliação à Grécia. E todos os fundamentalistas, ditadores e loucos que hoje atuam em várias regiões sentir-se-ão folgados. Há, em todo este processo, como que um incentivo à propagação da barbárie.

Só mentes obcecadas não vêem o golpe de Estado que a troika tem tido em marcha na Grécia. Durante anos ajudaram a corromper e a corroer o sistema político e as estruturas do Estado e sacaram muitos milhares de milhões de euros. Com os governantes da altura, martelaram as contas públicas, deixando cair umas migalhas para setores da população. Depois estoiraram com o sistema político-partidário que existia e quando o povo, de forma exemplar, construiu uma alternativa, mandam às malvas as mais elementares regras da democracia, querendo provocar a implosão. Em que apostarão de seguida? No ensaio de soluções antidemocráticas ou fascistas? Na instabilização da região por forma a criar condições para uma guerra? Com que amplitude, em que espaços se desenvolverá?

A palavra solidariedade na boca dos mandantes da UE, do FMI e do BCE é uma blasfémia. Para o FMI é bem claro que qualquer medida de “austeridade”, aplicada pelo lado da receita ou pelo da despesa, só pode ter um destinatário: o povo desprotegido, porque só esse é cumpridor, voluntário ou à força. É maldade a mais.
Do processo grego pode, como disse atrás, resultar um crescendo de subjugação. Mas a UE está mergulhada noutras perigosas situações e os seus dirigentes: i) vergonhosamente não são capazes de estruturar solidariedade organizada para apoiar milhões de migrantes e refugiados porque isso (ainda) não é um negócio e esta UE agora só trata de negócios e de lucros, seja na área da saúde ou na da proteção social ou na do “combate” à pobreza; ii) prosseguem numa abordagem do desemprego que “trata” de números e não das pessoas, aprofundando as desigualdades e a exclusão social; iii) insistem na hostilização à Rússia (encenando ser vítimas) e de outros importantes países, quando a construção de boas relações é indispensável para a nossa estabilidade e segurança; iv) avançam com a construção de uma União dicotómica e em núcleos – o do euro, onde imperam imposições e regras mesmo que absurdas, e outros onde possam estar regimes desrespeitadores da democracia ou pró-fascistas, ou um Reino Unido a reivindicar políticas anti solidárias; v) teimam na imposição da moeda única e de Tratados insustentáveis a países que não têm condições para aí sobreviverem, como é o caso de Portugal.

Há que, com humildade, trabalhar convergências para a resistência a este rumo desastroso e a criação de compromissos para alternativas, partindo de mínimos possíveis, agindo com seriedade e empenho na caminhada e com a determinação de no final o povo sair ganhador.
 


 
 
pessoas
Manuel Carvalho da Silva



 
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