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13-06-2014        Diário de Notícias

No capitalismo global, os megaeventos desportivos – como os campeonatos do mundo ou as olimpíadas – são celebrações da excepcionalidade. São mostrados como ilhas de ordem na desordem global e de paz na guerra global. São momentos de hipocrisia por excelência, em que as mensagens de fairplay e de competição com regras são financiadas pelas grandes marcas globais que praticam o mais possível o seu oposto no dia a dia. E, mais que tudo, são organizações híper-securitizadas contra qualquer risco de expressão de crítica social que traga para os olhos do mundo as condições quotidianas concretas dos povos e das pessoas em cujos espaços esses eventos têm lugar. Essa natureza de ilhas exige a imposição de um estado de exceção. Os campeonatos do mundo ou os jogos olímpicos são, cada vez mais, offshores face à lei vigente e ao funcionamento social corrente.

O Campeonato do Mundo de Futebol ontem inaugurado condensa em si todos estes traços. A “Lei Geral da Copa”, imposta pela FIFA ao Estado brasileiro, consagra zonas de não aplicação da lei nacional em anéis de 2 kilómetros em volta dos estádios, onde vigora um rigoroso monopólio de actividade comercial dos patrocinadores oficiais (os quais, tal como a própria FIFA, beneficiarão de isenção total de impostos brasileiros, numa desoneração total estimada em mil milhões de reais). Mais relevante: a FIFA estabeleceu como requisito para a realização do Mundial a adoção pelo Estado brasileiro de novas tipificações criminais e a criação de tribunais de exceção para julgamentos ultra-sumários em que serão aplicadas penas mais duras e com prejuízo dos direitos de defesa. E não chegasse isto, o estado de exceção associado ao Mundial faz-se também de 2 mil milhões de reais gastos com segurança pública (dos quais 54 milhões para a compra de armamento), da híper-militarização das cidades – e, nelas, sobretudo das comunidades pobres – e do treino dos batalhões de segurança urbana especial em países como Israel. Eis o “padrão FIFA de qualidade” traduzido em miúdos…

O “padrão FIFA de qualidade” são também as rendas chorudas a pagar aos que nunca deixam de ganhar. Lá como cá, esses serão os beneficiários das parcerias público-privado, como a Odebrecht, que arrecadam os benefícios da construção dos estádios amarrando as imensas perdas respectivas ao Estado. Ou seja, aos contribuintes: os governos estaduais contraíram empréstimos no valor de pelo menos 4,8 mil milhões de reais junto do BNDES para construir estádios que ficarão praticamente sem uso depois do Mundial (sim, o “padrão UEFA de qualidade” que conhecemos em Leiria ou em Olhão, foi consagrado em Manáus, em Cuiabá ou na Baía…).

Para as centenas de milhar de pessoas removidas dos seus lugares de residência precária – só no Rio de Janeiro cerca de 4700 famílias – sem qualquer garantia de que lhes seja dada habitação e para as tantas meninas que darão rosto aos números do aumento exponencial da exploração sexual de menores o “padrão FIFA de qualidade” é sinónimo de desespero que se somará ao desespero que já era o das suas vidas. É na condição destas pessoas que fica patente o outro lado da hipocrisia destes eventos globais: a sua retórica será a de uma espécie de tranquilizador zen planetário, ao passo que a sua prática é a do espezinhamento desapiedado dos direitos humanos de quem nunca os teve senão em teoria.

Desta contradição está, porém, a brotar uma nova consciência social. Que o povo brasileiro, amante por excelência do futebol, venha à rua clamar que não quer menos que o “padrão FIFA de qualidade” para a saúde, o ensino e os demais direitos sociais é uma fantástica sementeira de esperança. Esse pode bem vir a ser o maior legado desta Copa.


 
 
pessoas
José Manuel Pureza



 
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